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O Mundo 3 de Karl Popper

Este postal, que fala nos números primos, sugeriu-me falar de Karl Popper e do “seu” Mundo 3. Em minha opinião, Karl Popper foi um dos 5 maiores filósofos do século XX, mas também cometeu alguns erros, o que corrobora a ideia de que ninguém está isento de erros. Karl Popper tentou fazer a ponte ideológica entre solipsistas e realistas, e na medida em que não é possível adoptar uma posição imparcial entre a imparcialidade e a parcialidade, Karl Popper acabou por cair num solipsismo mitigado.


Imaginemos um indivíduo que sempre viveu na selva interior e que, um dia, vendo o mar que nunca antes tinha visto, retirou desse facto a ideia de que a experiência da visão do mar era produto do ser humano, o que significa a ideia de que o próprio mar era produto do ser humano. Esta é a visão solipsista, hiperbolizada. Em contraponto, outro indivíduo na mesma situação, ao ver o mar, pensaria que aquela imensa massa de água já existia antes de ele a descobrir; esta é a visão do realista.

Naturalmente que cada um dos selvagens da tribo da montanha que se deslocou para o mar, terá sobre o mar um conceito subjectivo, e através da intersubjectividade e das discussões sobre o problema, a tribo chega a um compromisso sobre “aquilo que é o mar”: uns chegam à conclusão de que o mar não existiria se não existisse um ser humano para dizer que o mar existe (solipsismo); e outros dizem que, mesmo que o ser humano não existisse, o mar não deixaria de existir tal qual é.

Esta discussão tribal é estéril, porque é óbvio que “aquilo que o mar é”, é diferente “daquilo que cada um dos selvagens pensa que o mar é”, por um lado — e é evidente que “aquilo que o mar é” já existia antes de os selvagens habitarem a selva, por outro lado. Portanto, em termos de racionalidade, o realismo ganhou a parada.


Karl Popper atribuiu à realidade três dimensões: o mundo 1, que é o mundo físico, da matéria, e de todos os objectos materiais; o mundo 2, que é o mundo da consciência humana, que inclui a subjectividade; e o mundo 3 que é o mundo das ideias, dos problemas e das teorias. Karl Popper nada mais fez do que sistematizar e/ou categorizar toda uma mundividência milenar de filósofos desde Platão a Eric Voegelin.

Porém, existe uma outra mundividência que exclui o mundo 3, que é a visão dos filósofos modernos, na sua maioria ligados às ciências humanas e sociais, saídos do Iluminismo (Kant foi um deles, quando afirmou : “ O entendimento (humano) cria as suas leis… não a partir da natureza, mas prescreve-as à natureza”). Uma das características do Iluminismo foi exactamente a recusa da existência do mundo 3 independentemente do ser humano, e o exacerbar o solipsismo através do racionalismo (que não é a mesma coisa que racionalidade).

É aqui que entroncam os números primos do postal supracitado. É óbvio que os números primos não podem ser produto do ser humano, mas nenhum solipsista e racionalista que se preze aceita esta ideia. Navegamos no mar da irracionalidade racionalista do solipsismo, e não há nada a fazer.

No entanto, Karl Popper estabelece a ponte de compromisso com os solipsistas dizendo que os números naturais (ao contrário dos números primos) são produto do ser humano, e é esta tendência de Karl Popper para contemporizar com o Zeitgeist — e tolerá-lo naquilo que este tem de pior — que me aborrece, porque ele tinha de facto a obrigação de não ceder em matéria de racionalidade.

Os solipsistas recusam o mundo 3 baseando-se na ideia de que a linguagem — e tudo o que se relaciona com o domínio linguístico — é obra do Homem. A falácia desta posição é evidente: se o Homem é produto da natureza, e a linguagem é produto do Homem, então a linguagem é produto da natureza (A = B, B = C, ==> A = C). A natureza continua a ser antes do Homem (a montante do Homem), e portanto a linguagem já existiria, em potência e na forma da Ideia de Platão, antes de o Homem existir na terra. O que aconteceu com o ser humano foi a adequação das características biológicas do Homem e do meio ambiente, a um tipo específico de linguagem que é característica do ser humano. De resto, pelo facto de não sabermos se existe vida inteligente humanóide em todo o universo, este facto não significa que possamos racionalmente justificar o solipsismo; e a existir outro tipo de vida inteligente humanóide no universo, o tipo de linguagem pode não ser exactamente o mesmo do ser humano.

Portanto, se a linguagem inteligente existe em potência no universo e independentemente do ser humano; este apenas evoluiu dentro de um ecossistema biológico planetário específico, que assumiu um tipo de linguagem como corolário da sua evolução — mas não podemos dizer, com verdade, que o tipo de linguagem humana é o único no universo. Isto significa que o Homem se serve da inteligência que existe em potência no universo e que se materializou nele — de uma forma específica — através da evolução (o que quer que se entenda por “evolução”), e portanto a linguagem humana é, em primeiro e último lugar, um produto da natureza, e não do Homem.

Dentro desta ideia, o Homem apenas descobre a realidade; a criação humana é exactamente esse esforço de descoberta que o distingue dos outros animais terráqueos. O Homem vai juntando as peças de um puzzle universal, e o contributo da originalidade da linguagem humana neste processo de construção do puzzle universal é o caminho especificamente humano adoptado na descoberta; porém, esse caminho especificamente humano na procura da Verdade — o “caminho de acção mínima” da inteligência do ser humano — é apenas um entre uma miríade de possíveis caminhos existentes potencialmente no universo.

Por tudo isto, e para além dos números primos, e ao contrário do que dizem os iluministas, os números naturais também não são produto do ser humano : a inteligência humana (que existia já em potência na natureza e no universo) apenas os intuiu da realidade. Portanto, não existe compromisso possível entre o solipsismo e o realismo, porque seria como procurar um compromisso entre a racionalidade e a irracionalidade. A linguagem humana é um instrumento que a natureza nos deu através da evolução (seja esta darwinista ou através de um desenho inteligente), e portanto, não é produto do Homem, embora o Homem interaja com a natureza e a modifique através da linguagem. A acção do Homem é reactiva : reage ao pré-existente, e obviamente que o pré-existente, seja ele em potência ou em acto, não é produto do Homem.

Dos três mundos de Karl Popper, apenas o mundo 2, que é o mundo da consciência humana e da sua subjectividade, está ao alcance de um cabal controlo por parte do Homem. Esse é o verdadeiro mundo do Homem, onde ele pode moldar a racionalidade e adequar o seu pensamento à realidade — ou seja, ir descobrindo a Verdade.

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