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O pessimismo e o optimismo em relação à História

René Guénon é frequentemente classificado como sendo um pensador pessimista e metido no mesmo saco do pessimismo de alguns historicistas como, por exemplo, Spengler. Se se pode, até certo ponto, concordar com a primeira premissa, a segunda não tem cabimento. O Historicismo europeu segue a ideia-base de Hegel de uma razão imanente que orienta o processo de devir e de um determinismo histórico; ao criticar Hegel, Guénon coloca-se fora do Historicismo europeu. Mas será que Guénon é realmente um pessimista?

Para podermos classificar alguém de pessimista, temos que ter uma referência de alguém que se diz optimista. Nesta última categoria, temos Karl Popper. Enquanto que René Guénon constata o que existe na modernidade mas que gostaria que não existisse, Karl Popper constata o que não existe na modernidade mas que gostaria que existisse. Neste sentido, ambos são pessimistas.

Até que ponto será legítimo classificar alguém, que tenta ver a realidade conforme ela é, de pessimista ? O que é o verdadeiro pessimismo e o que o distingue do realismo ?

Se René Guénon não foi influenciado por Hegel na sua análise da História: foi influenciado pelo misticismo imanente hindu; e na medida em que existe, na concepção histórica de Guénon, um Eidos ou uma forma histórica segundo a filosofia Yuga hinduísta, podemos dizer que Guénon foi um determinista, e neste sentido, um pessimista. René Guénon foi um gnóstico e um milenarista “à moda hindu”, não no sentido do gnosticismo cristão propriamente dito, mas no sentido do gnosticismo da antiguidade tardia que proliferou no Oriente Próximo.

O mesmo não se pode dizer, por exemplo, de Karl Popper ou de Eric Voegelin — cada um à sua maneira. Tanto um como o outro recusam a existência de Forma da História (um Eidos) que a predetermine; tanto um como o outro criticam o Historicismo.

De certa forma, a teoria quântica deu-lhes razão: não existe uma forma da história nem um futuro determinado, mas apenas possibilidades de acontecimentos — e mesmo essas possibilidades não são perscrutáveis pelo ser humano : mesmo que não tenhamos em conta factores que suplantam a capacidade de influência do Homem no curso do devir (por exemplo, cataclismos a nível global), a intencionalidade da acção humana em direcção a um determinado destino histórico pode reverter a sua marcha em função de um fenómeno de retroacção ideológica; ou seja, um sistema de ideias (uma utopia) que tente forjar um determinado futuro, gera antigénios que, através da entropia própria da passagem do tempo, podem (e normalmente assim acontece) gerar fenómenos de retroacção ideológica.

Diferente da concepção dita “historicista” é a de Giambattista Vico (e a de Karl Jaspers), e que foi, na minha opinião, a mais consentânea com uma visão abrangente das diversas estruturas da realidade. Para Vico, o Homem não pode determinar a História, e o futuro, na perspectiva do Homem, é incerto. Porém, em vez de uma concepção imanente do devir (que é característica dos historicistas e também de Guénon), Vico justifica a existência de um Eidos ou de uma forma histórica influenciada pela dimensão transcendente da realidade.

À primeira vista, pode parecer uma incoerência: como podemos conceber um Eidos histórico transcendente se não temos uma noção objectiva (mas apenas intuitiva e intersubjectiva) do que é a transcendência ? Em primeiro lugar, Vico parte do princípio de que a transcendência é uma das estruturas da realidade. Em segundo lugar, parte do princípio de que é impossível ao Homem determinar, só por ele próprio e divorciado da transcendência, o futuro histórico. E conclui que a História demonstra que existe uma Providência transcendental que influencia (mas não determina!) o decurso dos acontecimentos históricos. A visão histórica de Vico merece ser aprofundada à luz da actual física quântica.

Respondendo às perguntas supracitadas: sendo gnóstico, Guénon não podia deixar de ser um pessimista, e não um realista. Em contraste, podemos dizer que Eric Voegelin foi um realista (não no sentido do realismo de Nicolau Hartmann, mas no sentido de um realismo integral), embora não deixasse de ter sofrido influências do racionalismo de Kant de que tentou livrar-se, com algum sucesso.
Karl Popper não conseguiu “separar-se” de Kant. Porém, sendo um optimista do presente, Karl Popper era um pessimista em relação ao passado, e por isso não o podemos classificar de realista — ao contrário do que ele defendia para si mesmo.

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A filosofia política neo-ateísta e o problema da Teodiceia

A maior arma de arremesso argumentativo do ateísmo militante é, sem dúvida, o problema do Mal. O ateísta pergunta: “se Deus-Pai benigno existe, porque é que existe o mal no mundo?” E a partir desta questão, partem para a refutação da existência de Deus. Este argumento não é novo: Leibniz foi enxovalhado por Voltaire — que não se assumindo como ateísta, dizia-se um deísta confesso (maçom) — devido à defesa do filosofo alemão da teoria do Melhor dos Mundos, segundo a qual Deus teria criado o melhor dos mundos possível.

Dizia Leibniz que Deus, entre muitas hipóteses possíveis, e dando curso ao Seu livre-arbítrio plenipotenciário, escolheu de entre essas hipóteses possíveis para o mundo, a melhor delas. Porém, depois que se deu o terramoto devastador de 1755 em Lisboa, Voltaire escreveu uma novela (“Cândido”) cuja personagem principal — para além do próprio Cândido — era o Professor Pangloss que era o tutor do Cândido. O nome germânico “Pangloss” foi imediatamente associado a Leibniz e à sua teoria da Teodiceia, segundo a qual Deus criou o melhor dos mundos possíveis. Nessa novela “Cândido”, Voltaire apresentou o argumento principal do neo-ateísmo moderno e contemporâneo: se existe Deus e vivemos no melhor dos mundos possíveis, porque é existe o Mal? — e consideram-se aqui, de uma forma exclusivamente utilitarista, as catástrofes naturais como uma expressão do Mal.

Esta crítica à Teodiceia é recorrente no neo-ateísmo e é a principal trave do edifício da argumentação de gente como Daniel Dennett, Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris, Julian Savulescu, Anthony Cashmore, Peter Singer, etc. Partindo do princípio de que o Mal existe, e que Deus não erradicou esse Mal, partem para uma concepção do mundo e do universo em que a realidade se resume a um processo natural cego e aleatório, traduzido na seguinte frase de Richard Dawkins :

“O universo que observamos tem precisamente as propriedades que esperaríamos dele, basicamente sem desígnio, sem finalidade ou propósito, sem mal nem bem, nada senão uma cega e impiedosa indiferença.”

Esta concepção do universo é a continuidade e actualização da crítica de Voltaire a Leibniz.


Em primeiro lugar, a pergunta que deveria ser feita, antes de mais nada, pelos ateístas, seria a seguinte : “Por que é que existe algo em vez de nada?” (Leibniz). Em vez disso, o ateísta ignora esta pergunta fundamental e primordial e, assumindo o universo como um efeito sem causa, passa à pergunta seguinte : “Por que é que existe o Mal no mundo?”. Ora, a verdade é que não é possível elaborarmos uma teoria coerente e convincente que dê resposta à segunda pergunta sem equacionarmos, em primeiro lugar, uma teoria que dê resposta à primeira pergunta.

O ateísta assume a posição de alguém que, perante uma determinada realidade, admite com resignação a existência de um determinismo — uma espécie de fado existencial, ou facticidade — que o impede de se questionar para além daquilo que percepciona directamente. Existe nesta posição ateísta uma espécie de “pragmatismo do estúpido”: perante a dificuldade na elaboração de teorias que resolvam determinados problemas, opta-se por fazer de conta que esses problemas simplesmente não existem. E por isso, a origem do nosso universo é simplesmente escamoteada.

Em segundo lugar — e recorrendo eu agora ao filósofo americano William Dembski — os ateístas deveriam também perguntar: “Por que é que existe o Bem no mundo?” Porém, esta pergunta não é feita pelos ateístas, e a omissão da pergunta é (outra vez) propositada. A abordagem dos ateístas ao problema da ética na sua relação (metafísica) com Deus, faz-se sempre pela negativa — coloca-se sempre o acento tónico no Mal, e faz-se de conta que o Bem não existe. Esta super dramatização ateísta do problema do Mal do Mundo (este tremendismo maléfico) tem origem no gnosticismo da antiguidade tardia, o que transforma realmente o neo-ateísmo contemporâneo numa metafísica negativa (numa espécie de religião do Mal).

Portanto, as perguntas correctas e lógicas, a serem colocadas, deveriam ser as seguintes:

  1. Por que é que existe algo em vez de nada?
  2. Por que é que existe o Bem e o Mal?

Os ateístas ignoram a primeira pergunta e só consideram válida uma parte da segunda pergunta; ou seja, os ateístas truncam a realidade para a adaptar a uma visão pragmatista e estupidificante da realidade.

Pelo contrário, a verdadeira filosofia e as religiões em geral têm sempre presente o conjunto das duas perguntas, sem o qual não existe qualquer nexo lógico quando abordamos o problema da Teodiceia. Não podemos partir a realidade a meio, e interpretar somente essa metade como se fosse a totalidade da realidade — e é isto que o neo-ateísmo faz, e quem faz isso em nome da filosofia, para além de estúpido, reduz a filosofia a uma ideologia política (no sentido iluminista : uma religião política).

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