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Aristóteles e o relativismo moral (1)

O relativismo moral não é um fenómeno exclusivamente moderno; foi sempre o reflexo de uma crise social e civilizacional, e as suas características principais são recorrentes ao longo da História.

Na antiga Grécia, o relativismo ético-moral foi protagonizado pelos sofistas e entre estes, destaca-se Protágoras com a célebre proposição: “O Homem é a medida de todas as coisas”.

Com toda a propriedade, concluiu Aristóteles que sendo o Homem “a medida de todas as coisas”, tudo o que parece é verdadeiro, e igualmente verdadeiro; e as afirmações contraditórias são verdadeiras ao um mesmo tempo ― porque se “tudo é relativo” e a verdade depende exclusivamente do ponto de vista do observador (como defendiam Protágoras e os sofistas), então as afirmações de toda a gente são verdadeiras, mesmo que contraditórias. Neste sentido, segundo Protágoras, é legítimo ― porque implícita ou explicitamente verdadeiro ― que seja afirmado, a um mesmo tempo, que uma coisa é e não é.

Assim, Aristóteles conclui que o relativismo moral nega o princípio de identidade ( A=A), porque permite que, simultaneamente, uma coisa seja e não seja (seja verdadeira e falsa), em um mesmo momento. Para o relativismo moral, e segundo Aristóteles, o exercício do contraditório não serve para a procura científica da verdade senão para a constatação de que a verdade depende exclusivamente da opinião de cada um; e se as opiniões são contraditórias, para os sofistas elas não podem deixar de ser todas verdadeiras; e se todas são verdadeiras, nega-se o princípio de identidade segundo o qual “é impossível que uma coisa seja e não seja, a um mesmo tempo”.

Quando os sofistas dizem que nenhum Homem tem a verdade absoluta, Aristóteles responde dizendo que mesmo que fosse possível que todas as coisas pudessem ser e não ser simultaneamente, nunca seria possível retirar, à natureza dos seres, o mais e o menos (o maior e o menor).

« Nunca se poderá sustentar que dois e três são, de igual modo, números pares. E aquele que pense que quatro e cinco são a mesma coisa, não terá um pensamento falso de grau igual ao daquele que defendesse a ideia de que quatro e mil são idênticos.

Se existe diferença na falsidade, é evidente que o primeiro pensa uma coisa menos falsa. Por conseguinte, está mais próximo ao que é verdadeiro. Logo, se o que é mais uma coisa é o que se aproxima mais dela, deve haver algo verdadeiro, do qual será o mais verdadeiro mais próximo.

E se este verdadeiro [absoluto] não existisse, pelo menos existem coisas mais certas e mais próximas da verdade que outras (…) »

― “Metafísica”, 4 ― IV (tradução livre da edição em língua inglesa)

Portanto, mesmo que a verdade absoluta não existisse (como defendem os sofistas), Aristóteles demonstrou assim que existem coisas mais verdadeiras do que outras, ou que o grau de falsidade não é sempre o mesmo. Se existem coisas mais verdadeiras do que outras, todas as coisas não podem ser igualmente verdadeiras. Se todas as coisas não podem ser igualmente verdadeiras, o Homem não pode ser a medida de todas as coisas.

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Filed under ética, Filosofia

O ateísmo cristão

Por vezes ouvimos algum intelectual de urinol referir-se ao “agnosticismo metodológico”, ou outro qualquer criticar o cristianismo ou a bíblia em nome de valores que são exactamente os do cristianismo e da bíblia. E contudo, essa gente diz-se anti-cristã. Não se dão conta de que se baseiam nos valores cristãos para criticar o próprio cristianismo e a religião que está na base dos valores que adoptam.

Nietzsche foi dos poucos ateus que compreendeu que a negação do cristianismo e de Deus significa a substituição do imperativo “eu devo” pelo imperativo “eu quero”. O anti-cristão por excelência não poderia, em coerência, adoptar os valores éticos herdados do cristianismo, a não ser que se esteja a enganar a si próprio ― que é o que a maioria dos ateus fazem.

Por isso, podemos dizer que a maioria dos ateus é gente burra, porque não se dão conta que não podemos negar a Deus sem negar também toda a estrutura ideológica do cristianismo, incluindo a ética cristã. Nietzsche escreveu:

« A moral cristã é um comando; a sua origem é transcendente; está para além de qualquer crítica, de qualquer direito a crítica; ela é verdadeira apenas se Deus é verdadeiro ― ela mantém-se ou cai com a fé em Deus. »

(O Crepúsculo dos Ídolos)

Nietzsche era coerente e compreendeu a burrice da maioria dos ditos “ateus”. A única forma de se ser ateu é fazer tudo aquilo que se quer e segundo um critério puramente subjectivo, sem nenhuns deveres que não sejam aqueles ditados pelos seus interesses meramente pessoais. Nenhum mandamento, incluindo o de não matar, se pode aplicar ao ateu senão segundo critérios subjectivos — por exemplo, o da escolha arbitrária e subjectiva da vítima a assassinar.

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Miguel Esteves Cardoso e o conceito de família

O Miguel Esteves Cardoso diz que é “conservador”. Penso que ele é capaz de dizer que é “seja o que for”; ele parece não ter qualquer problema ontológico e a sua identidade parece resumir-se à oportunidade da circunstância.

Eu não tenho nada contra a complexidade de conceitos, nem sequer tenho alguma coisa contra a ambiguidade que é característica do humor. Porém, o humor tem que ser claramente identificável como tal (como sendo humor) porque, como na política, o humor diz respeito a “situações” e não a “princípios”.

Quando o Miguel Esteves Cardoso escreve este texto sobre a família, fica claro que ele se refere a “princípios” e não a “situações”; as situações descritas decorrem dos princípios previamente definidos e defendidos.

Enquanto que o reconhecimento da ambiguidade das situações é saudável (através do humor e do jogo político), a ambiguação dos princípios revela uma mente pouco saudável.

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