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Conceito, noção, essência, substância

O conceito de algo constitui tudo aquilo que se possa dizer ou descrever acerca desse algo. Por exemplo, o conceito de “homem” engloba todas as características da espécie humana.

E qual é a diferença entre “conceito de homem” e “noção de homem” ? Normalmente dizemos: “você não tem a noção do que é um homem”, e não dizemos “você não tem o conceito do que é um homem”.

A noção é o conteúdo do conceito, no sentido da análise metodológica desse conceito. A noção particulariza, o conceito generaliza. O conceito descreve, a noção define.

Ao contrário do conceito, que engloba todas as características e qualidades possíveis de algo, a noção de algo está directamente ligada à definição desse algo na medida em que esta (a definição) não compreende tudo o que constitui esse algo (porque neste caso, seria o conceito desse algo), mas tudo o que esse algo não pode deixar de ser ― ou seja, tudo o que é estritamente necessário (por exemplo a definição de homem: “o homem é um mamífero bípede, dotado de inteligência e de linguagem articulada”).

Por isso, a noção de “homem” parte da definição de “homem” para se subsumir (relacionar) com outras características ― características estas não-necessárias para a definição ― do género em análise.



A essência é o “ser sem matéria”, e neste sentido, é o ser em potência. A substância é o ser em acto.

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Aristóteles e o relativismo moral (1)

O relativismo moral não é um fenómeno exclusivamente moderno; foi sempre o reflexo de uma crise social e civilizacional, e as suas características principais são recorrentes ao longo da História.

Na antiga Grécia, o relativismo ético-moral foi protagonizado pelos sofistas e entre estes, destaca-se Protágoras com a célebre proposição: “O Homem é a medida de todas as coisas”.

Com toda a propriedade, concluiu Aristóteles que sendo o Homem “a medida de todas as coisas”, tudo o que parece é verdadeiro, e igualmente verdadeiro; e as afirmações contraditórias são verdadeiras ao um mesmo tempo ― porque se “tudo é relativo” e a verdade depende exclusivamente do ponto de vista do observador (como defendiam Protágoras e os sofistas), então as afirmações de toda a gente são verdadeiras, mesmo que contraditórias. Neste sentido, segundo Protágoras, é legítimo ― porque implícita ou explicitamente verdadeiro ― que seja afirmado, a um mesmo tempo, que uma coisa é e não é.

Assim, Aristóteles conclui que o relativismo moral nega o princípio de identidade ( A=A), porque permite que, simultaneamente, uma coisa seja e não seja (seja verdadeira e falsa), em um mesmo momento. Para o relativismo moral, e segundo Aristóteles, o exercício do contraditório não serve para a procura científica da verdade senão para a constatação de que a verdade depende exclusivamente da opinião de cada um; e se as opiniões são contraditórias, para os sofistas elas não podem deixar de ser todas verdadeiras; e se todas são verdadeiras, nega-se o princípio de identidade segundo o qual “é impossível que uma coisa seja e não seja, a um mesmo tempo”.

Quando os sofistas dizem que nenhum Homem tem a verdade absoluta, Aristóteles responde dizendo que mesmo que fosse possível que todas as coisas pudessem ser e não ser simultaneamente, nunca seria possível retirar, à natureza dos seres, o mais e o menos (o maior e o menor).

« Nunca se poderá sustentar que dois e três são, de igual modo, números pares. E aquele que pense que quatro e cinco são a mesma coisa, não terá um pensamento falso de grau igual ao daquele que defendesse a ideia de que quatro e mil são idênticos.

Se existe diferença na falsidade, é evidente que o primeiro pensa uma coisa menos falsa. Por conseguinte, está mais próximo ao que é verdadeiro. Logo, se o que é mais uma coisa é o que se aproxima mais dela, deve haver algo verdadeiro, do qual será o mais verdadeiro mais próximo.

E se este verdadeiro [absoluto] não existisse, pelo menos existem coisas mais certas e mais próximas da verdade que outras (…) »

― “Metafísica”, 4 ― IV (tradução livre da edição em língua inglesa)

Portanto, mesmo que a verdade absoluta não existisse (como defendem os sofistas), Aristóteles demonstrou assim que existem coisas mais verdadeiras do que outras, ou que o grau de falsidade não é sempre o mesmo. Se existem coisas mais verdadeiras do que outras, todas as coisas não podem ser igualmente verdadeiras. Se todas as coisas não podem ser igualmente verdadeiras, o Homem não pode ser a medida de todas as coisas.

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Relendo Aristóteles

A ciência moderna chegou à conclusão ― nomeadamente através de Stephen Hawking e da teoria do Big Bang ― de que o universo é finito, porque tudo o que tem um princípio não pode ser classificado como sendo infinito. Contudo, Aristóteles já tinha afirmado exactamente a mesma coisa no século IV a.C.

« É evidente que existe um primeiro princípio e que não existe nem uma série infinita de causas, nem uma infinidade de espécies de causas. E assim, do ponto de vista da matéria, é impossível que haja produção até ao infinito; »

― “Metafísica” (2, II)

Mas Aristóteles vai mais longe: o universo não só teve um princípio, como tem um fim, porque não é possível uma produção até ao infinito. Andamos a ensinar Darwin nas escolas quando deveríamos também ensinar Aristóteles.

Durante séculos, e principalmente depois de Newton, a ciência positivista estava convencida da infinitude do universo ao mesmo tempo que desprezava Aristóteles e todos os filósofos clássicos. Afinal, chegamos à conclusão de que o velho grego tinha razão e que os seus detractores modernistas e positivistas estavam errados !!!

O caso do Positivismo contra Aristóteles é a prova viva e a evidência de que o “progresso histórico linear inexorável e necessário” ― conforme saído do Iluminismo, do Positivismo e das religiões políticas modernas ― simplesmente não existe.

Sobre o positivismo que privilegia o método das ciências da natureza aplicado a toda e qualquer investigação, Aristóteles escreve:

« É preciso que saibamos, antes de mais, que tipo de demonstração convém a cada objecto particular; porque seria absurdo confundir e misturar a indagação da ciência com o método (…) »

― “Metafísica” (2, III)

Esta distinção entre os métodos de acordo com as diversas ciências abre hoje caminho às ciências do espírito que se distinguem do método positivista das ciências da natureza.

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Aristóteles, o neo-ateísmo e o naturalismo

« Atribuir ao azar ou à fortuna estes admiráveis efeitos ― a beleza e a ordem universal ― é muito pouco racional. » ― Aristóteles, “Metafísica”, 1,III

Parece-me espantoso que um indivíduo nascido no século IV antes de Cristo possa ter tido a capacidade lógica e racional que falta a homens de ciência como Richard Dawkins. E em relação aos naturalistas panteístas, como é exemplo Carl Sagan, Aristóteles escreveu:

« (…) o sujeito, por si mesmo, não pode ser autor das suas próprias mutações. » ― ibidem

As mutações de um determinado sujeito não podem ser determinadas por ele próprio. Por isso, é impossível que o autor das mutações e o sujeito destas coincidam e existam num mesmo plano de ordem.


Votos de um bom fim-de-semana!

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A decadência da Atenas contemporânea

A ilusão pessimista e europeia da decadência da humanidade tem como base a fixação intelectual sobre o destino da Europa. O historicismo pessimista de Oswald Spengler reflecte essa obsessão com a Europa, que tal como Atenas ― com a implosão da polis ―, criou uma ideia de decadência global que não existia na realidade.

Depois da guerra do Peloponeso e da brutalidade inominável e degradante, Atenas entrou em decadência em função da política que se degradou na polis; diz o mito grego que foi então que a deusa Atena, protectora da polis, “mudou de lado” depois de ter sido insultada no seu próprio templo, e condenou a sua própria cidade à decadência política e cultural: surgiu, então, o relativismo do tempo dos sofistas (os iluministas da Grécia Antiga).
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