A liberdade

« Há duas liberdades: a falsa, na qual o homem pode dizer o que quiser; a verdadeira, na qual o homem pode fazer o que deve. »

Esta proposição foi respigada da caixa de comentários deste postal no blogue radical de esquerda, Jugular.

Reparem, em primeiro lugar, que se equiparam, num mesmo plano de conceitos, tipos de acções diferentes : dizer e fazer. Dizer é um tipo de acção diferente de fazer. Quem diz, só por isso, não realiza actividade. Dizer é realização e actividade em potência, mas não é, por si só, acção transformadora da realidade. O discurso não é sinónimo de desempenho automático e concreto da mudança da realidade.

Portanto, é um erro de lógica equiparar, numa mesma proposição, o “dizer” com o “fazer”.
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Filed under ética, Filosofia

O “eunuco espiritual”, segundo Eric Voegelin

Na sua obra “História das Ideias Políticas” (edição inglesa), Eric Voegelin explica-nos aquilo que ele chama de “eunucoidismo espiritual”. Vou tentar traduzir aqui esse conceito, segundo Eric Voegelin. Os trechos a itálico reflectem a terminologia do próprio Eric Voegelin.


Eric Voegelin

Com o positivismo, a ciência adquiriu a característica de um pathos (do grego, “paixão”) de autonomia e auto-confiança (ou pathos cientificista), que deriva da verificação da causalidade empírica dos fenómenos. Se uma determinada relação causal fenoménica é constatada pela ciência, esta adquire essa auto-confiança que não existe naturalmente na condição existencial do ser humano.

A condição existencial, natural e normal do ser humano, é a da incerteza; em contraponto, a condição normal da ciência positivista é da “certeza” em função da verificação empírica da causalidade de parte dos fenómenos, e de uma auto-confiança que essa “certeza” lhe dá ― pelo menos é assim que a “verdade” da ciência é interpretada pelo eunuco espiritual.
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Haiti : um protectorado do mundo

A situação do Haiti terá que passar por um retorno ao estatuto internacional de protectorado; não já da ex potência colonizadora (a França), mas um protectorado de todo o mundo. O Haiti dever ser um protectorado no sentido literal da palavra: um povo que deve ser protegido.

A capital do Haiti (Port-au-prince) só tem uma solução viável: ser praticamente toda terraplanada e reconstruída de raiz. Ora isto exige um esforço enorme, não só financeiro como de meios logísticos e técnicos ― coisas que o Haiti não tem. Por outro lado, essa reconstrução não se consegue sem segurança e sem disciplina que só podem vir de forças do exterior.

Naturalmente que os países que investirem na reconstrução de raiz do Haiti deverão ter algumas contrapartidas, porque não há almoços grátis. Por exemplo, a possibilidade de se instalarem fabricas de mão-de-obra intensiva (aquelas que já fugiram de Portugal) na área dos têxteis e do calçado, ou fábricas de transformação de pescado; ou na construção de hotéis de cinco estrelas para exploração do turismo, construção de marinas para barcos de recreio, etc.

Só depois do Haiti entrar na senda da recuperação económica, poderá paulatinamente ir-se livrando da sua nova situação de protectorado do mundo. Para já, negar-se a este estatuto significará o prolongar ad Aeternum do sofrimento e da miséria inaceitável em que vive aquele povo.

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Aristóteles, o neo-ateísmo e o naturalismo

« Atribuir ao azar ou à fortuna estes admiráveis efeitos ― a beleza e a ordem universal ― é muito pouco racional. » ― Aristóteles, “Metafísica”, 1,III

Parece-me espantoso que um indivíduo nascido no século IV antes de Cristo possa ter tido a capacidade lógica e racional que falta a homens de ciência como Richard Dawkins. E em relação aos naturalistas panteístas, como é exemplo Carl Sagan, Aristóteles escreveu:

« (…) o sujeito, por si mesmo, não pode ser autor das suas próprias mutações. » ― ibidem

As mutações de um determinado sujeito não podem ser determinadas por ele próprio. Por isso, é impossível que o autor das mutações e o sujeito destas coincidam e existam num mesmo plano de ordem.


Votos de um bom fim-de-semana!

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Filed under Filosofia

A direita como parte do universo da esquerda

« Por outro lado, não tenhamos a ilusão de que o actual poder político socialista socrático age deste modo com o fito de desviar a atenção da chamada opinião pública da situação calamitosa em que o país se encontra ao nível económico, financeiro e social. Supor tal é um erro em que incorre a falsa direita dos interesses, em Portugal personificada no PSD e CDS, adversa a combater numa guerra cultural cuja importância a sua tacanha mentalidade materialista de guarda-livros não atinge de todo em todo (…) »

Estou totalmente de acordo com esta ideia. Só não sei se a “direita” assume essa posição de diversão por pura ignorância ou por concordância e compadrio; é essa a minha dúvida. Também é verdade que Portugal tem sofrido pressões enormes tanto do parlamento europeu como da comissão europeia, onde o lobby gay é fortíssimo. A não complacência portuguesa atiraria o nosso pequeno país para o limbo em que vivem hoje os pequenos países como a Estónia e a Lituânia.

A mim parece-me que a direita portuguesa não é uma direita direita, mas é a negativa da negativa da direita, ou seja: [ − (− direita) ≡ direita ]. A direita portuguesa (como a espanhola) existe somente através da logicização da lógica e da abstracção dos símbolos em relação aos primeiros princípios. Acontece que, em política como na História, o que conta são as experiências, e não as ideias. E quando as experiências da direita se afastam dos princípios axiomáticos intuídos directa e empiricamente, e antes constrói um edifício lógico (como faz esquerda) que define a acção mas que é abstraído da experiência e exclusivamente escorado na racionalização ideológica, essa direita passa a ser uma não-esquerda ― passa a existir num universo lógico de esquerda:


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A ignorância como ferramenta para criação do “homem novo”

É impossível a uma pessoa que não tenha estudado, mesmo de uma forma elementar, a história das ideias (filosofia), compreender o que se passa hoje à sua volta. Essa pessoa apenas reage a estímulos culturais e simbólicos de que não sabe a origem; o mundo resume-se ao presente, porque para essa pessoa, a História que aprendeu na escola é apenas um amontoado de factos datados.

Por isso é que a elite política tem eliminado o ensino da História das Ideias nos graus mais baixos da educação escolar. Enquanto que o regime de Salazar seleccionava o tipo de matéria a dar — eliminando aquelas áreas de pensamento que poderiam contrariar a ideologia do Estado Novo —, o sistema “democrático” optou por pura e simplesmente eliminar a filosofia dos curricula. É em nome da “democracia”, e através da ignorância funcional do povo, que a nova elite política esquerdista pretende transformar a sociedade e criar o “homem novo”.

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A decadência da Atenas contemporânea

A ilusão pessimista e europeia da decadência da humanidade tem como base a fixação intelectual sobre o destino da Europa. O historicismo pessimista de Oswald Spengler reflecte essa obsessão com a Europa, que tal como Atenas ― com a implosão da polis ―, criou uma ideia de decadência global que não existia na realidade.

Depois da guerra do Peloponeso e da brutalidade inominável e degradante, Atenas entrou em decadência em função da política que se degradou na polis; diz o mito grego que foi então que a deusa Atena, protectora da polis, “mudou de lado” depois de ter sido insultada no seu próprio templo, e condenou a sua própria cidade à decadência política e cultural: surgiu, então, o relativismo do tempo dos sofistas (os iluministas da Grécia Antiga).
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Filed under Filosofia, política

A definição dos “ismos”

Qualquer “ismo” político faz parte da realidade humana/existencial/ideológica/política e por isso é impossível defini-lo. Por exemplo, é impossível definir o fascismo, mas apenas podemos definir conceitos que pertençam ou sejam apreendidos pela sua estrutura da realidade. Para podermos definir o fascismo teríamos que definir não só cada um dos seres humanos que faz parte, directa ou indirectamente, do sistema do fascismo, como teríamos também de definir os seres humanos que se posicionam no exterior do fascismo, indiferentes, contra ele ou a favor dele. Teríamos que transformar a História numa ciência exacta.
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O ateísmo cristão

Por vezes ouvimos algum intelectual de urinol referir-se ao “agnosticismo metodológico”, ou outro qualquer criticar o cristianismo ou a bíblia em nome de valores que são exactamente os do cristianismo e da bíblia. E contudo, essa gente diz-se anti-cristã. Não se dão conta de que se baseiam nos valores cristãos para criticar o próprio cristianismo e a religião que está na base dos valores que adoptam.

Nietzsche foi dos poucos ateus que compreendeu que a negação do cristianismo e de Deus significa a substituição do imperativo “eu devo” pelo imperativo “eu quero”. O anti-cristão por excelência não poderia, em coerência, adoptar os valores éticos herdados do cristianismo, a não ser que se esteja a enganar a si próprio ― que é o que a maioria dos ateus fazem.

Por isso, podemos dizer que a maioria dos ateus é gente burra, porque não se dão conta que não podemos negar a Deus sem negar também toda a estrutura ideológica do cristianismo, incluindo a ética cristã. Nietzsche escreveu:

« A moral cristã é um comando; a sua origem é transcendente; está para além de qualquer crítica, de qualquer direito a crítica; ela é verdadeira apenas se Deus é verdadeiro ― ela mantém-se ou cai com a fé em Deus. »

(O Crepúsculo dos Ídolos)

Nietzsche era coerente e compreendeu a burrice da maioria dos ditos “ateus”. A única forma de se ser ateu é fazer tudo aquilo que se quer e segundo um critério puramente subjectivo, sem nenhuns deveres que não sejam aqueles ditados pelos seus interesses meramente pessoais. Nenhum mandamento, incluindo o de não matar, se pode aplicar ao ateu senão segundo critérios subjectivos — por exemplo, o da escolha arbitrária e subjectiva da vítima a assassinar.

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Cientificismo

Quando analisamos a religiosidade humana à luz da ciência, não nos podemos esquecer de um detalhe lógico essencial:

— a ciência (e as teorias científicas) dependem da racionalidade humana para poderem existir, o que implica o facto de não ser possível à ciência testar retrospectivamente a racionalidade humana da qual depende, a não ser através da racionalização ideológica que separa os símbolos da experiência humana.

Por isso, teses “científicas” como esta, para além de não serem racionalmente refutáveis à luz do princípio da falsificabilidade de Karl Popper, baseiam-se em ideologias racionalizadas, e não na Razão. Trata-se da “ciência” ao serviço de uma determinada religião política, isto é, de cientificismo.

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Filed under religiões políticas

Descartes tinha razão


« Entretanto, como explicar o erro? Como poderia Deus deixar que o erro existisse? »

O processo de conhecimento racional (material, físico) é um processo de “tradução da realidade”, e não um “reflexo da realidade”. Os nossos sentidos traduzem a realidade, e esta não é entendível por nós através de um processo reflexivo [a realidade que se reflecte directamente, tal qual ela é, no nosso pensamento]. O olho da rã não vê a forma da sua presa (a mosca), mas percebe o movimento do seu voo ― através de um processo de “tradução” da sua realidade material, através dos seus sentidos; os sentidos da rã não “reflectem” a sua realidade tal qual ela é, mas “traduzem” essa realidade. De modo semelhante, ao ser humano escapam muitos detalhes da Realidade (com maiúscula, porque engloba das diversas realidades).
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As aparências “aparudem”

Não sei quem é o autor desta proposição, mas achei interessante:

« É certo que quase nada vale por aquilo que parece. E, no entanto, talvez o que pareça valha sobre o quase-nada que lhe falta para ser tudo aquilo que não é. »

Esta proposição (ou parágrafo) tem duas partes distintas (ou períodos).

A primeira parte constata o lugar comum segundo o qual, a maior parte das vezes, as “aparências iludem”. Porém, ― e passamos à segunda parte da proposição ― acontece muitas vezes que as aparências são mais importantes do que os pequenos detalhes que fazem com que aquilo não é, passe a ser, ou seja, através das aparências, muitas vezes é-se, virtualmente, aquilo que não se é na realidade.

Contudo, não é definido, na frase, se o valor daquilo que parece, é superior ou inferior ao valor real do objecto em questão, o que significa que podemos ora sobrevalorizar ou subvalorizar aquilo que parece. A única forma de nos aproximarmos da verdade [ou da realidade] daquilo que parece, fazendo com que aquilo que parece passe a estar muito próximo daquilo que é, será sempre tentando evitar o erro. Neste sentido, devemos utilizar essencialmente a Razão [racionalidade] que é essencialmente composta pelo cálculo [do latim, Ratio = cálculo] e pela lógica-matemática [que é uma das diversas formas de inteligência]. Portanto, na busca da verdade não devemos deixar-nos guiar pelo instinto [que é irracional] ou confiar na nossa intuição [que decorre da racionalização, e não da racionalidade].

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A realidade espiritual de um “duro” de ouvido

Existem pessoas que, para além de serem “duras” de ouvido, não têm sensibilidade musical. Eu conheci um indivíduo que era inteligente suficiente para se formar em medicina, mas para além de não valorizar a música (não apreciava a música), era tão “duro” de ouvido ao ponto de não saber cantar a melodia mais simples.

Para essas pessoas, a música existe essencialmente para os outros, ou a música existe como qualquer coisa que elas não entendem bem. Para elas, a melodia que é característica da música é “inverificável” ; elas apreendem apenas um arrazoado de sons a que não conseguem dar um sentido coerente. Para essas pessoas, ouvir uma peça de Beethoven ou um disco de música “punk” não faz muita diferença. Em função dessa característica, essas pessoas não acreditam na música como arte, embora tolerem a ideia de que as outras pessoas “acreditem” que a música é uma arte.

Para uma pessoa dura de ouvido e sem sensibilidade musical, o facto de alguém considerar a música como uma arte, é uma espécie de crença. A sua experiência pessoal não lhe permite validar a realidade musical, ou seja, a música não faz parte da sua realidade senão como um conjunto de sons mais ou menos caóticos e indistintos.

De modo semelhante e metafórico, existem indivíduos que não têm sensibilidade espiritual, e conhecem os Deuses das diferentes religiões apenas através das respectivas comunidades de fiéis.

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A maçonaria europeia e as “teorias de conspiração”

Este artigo de Olavo de Carvalho chama a nossa atenção para a procura da verdade, o que significa a tentativa da eliminação do erro. Eu estou genericamente de acordo com o texto, embora esteja em desacordo com um pequeno detalhe que deixarei para o fim deste postal.
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A ideia de “progresso” e a do “presente autoritarista”

« A ideia de “progresso” através de várias fases da História, escorada numa sequência material que demonstra um incremento de valor através de fases sucessivas, é a base dessa ideia segundo a qual o presente é sempre superior em valor em relação ao passado. A ideia de “progresso” justifica a legitimidade inquestionável e dogmática da acção política do presente na medida em que evoca a sua superioridade em relação ao passado. Contudo, o que está implícito nessa doutrina é uma ideia recorrente destinada a proteger o presente da invalidação ideológica que possa vir do futuro. »

Ler aqui.

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