A filosofia política neo-ateísta e o problema da Teodiceia

A maior arma de arremesso argumentativo do ateísmo militante é, sem dúvida, o problema do Mal. O ateísta pergunta: “se Deus-Pai benigno existe, porque é que existe o mal no mundo?” E a partir desta questão, partem para a refutação da existência de Deus. Este argumento não é novo: Leibniz foi enxovalhado por Voltaire — que não se assumindo como ateísta, dizia-se um deísta confesso (maçom) — devido à defesa do filosofo alemão da teoria do Melhor dos Mundos, segundo a qual Deus teria criado o melhor dos mundos possível.

Dizia Leibniz que Deus, entre muitas hipóteses possíveis, e dando curso ao Seu livre-arbítrio plenipotenciário, escolheu de entre essas hipóteses possíveis para o mundo, a melhor delas. Porém, depois que se deu o terramoto devastador de 1755 em Lisboa, Voltaire escreveu uma novela (“Cândido”) cuja personagem principal — para além do próprio Cândido — era o Professor Pangloss que era o tutor do Cândido. O nome germânico “Pangloss” foi imediatamente associado a Leibniz e à sua teoria da Teodiceia, segundo a qual Deus criou o melhor dos mundos possíveis. Nessa novela “Cândido”, Voltaire apresentou o argumento principal do neo-ateísmo moderno e contemporâneo: se existe Deus e vivemos no melhor dos mundos possíveis, porque é existe o Mal? — e consideram-se aqui, de uma forma exclusivamente utilitarista, as catástrofes naturais como uma expressão do Mal.

Esta crítica à Teodiceia é recorrente no neo-ateísmo e é a principal trave do edifício da argumentação de gente como Daniel Dennett, Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris, Julian Savulescu, Anthony Cashmore, Peter Singer, etc. Partindo do princípio de que o Mal existe, e que Deus não erradicou esse Mal, partem para uma concepção do mundo e do universo em que a realidade se resume a um processo natural cego e aleatório, traduzido na seguinte frase de Richard Dawkins :

“O universo que observamos tem precisamente as propriedades que esperaríamos dele, basicamente sem desígnio, sem finalidade ou propósito, sem mal nem bem, nada senão uma cega e impiedosa indiferença.”

Esta concepção do universo é a continuidade e actualização da crítica de Voltaire a Leibniz.


Em primeiro lugar, a pergunta que deveria ser feita, antes de mais nada, pelos ateístas, seria a seguinte : “Por que é que existe algo em vez de nada?” (Leibniz). Em vez disso, o ateísta ignora esta pergunta fundamental e primordial e, assumindo o universo como um efeito sem causa, passa à pergunta seguinte : “Por que é que existe o Mal no mundo?”. Ora, a verdade é que não é possível elaborarmos uma teoria coerente e convincente que dê resposta à segunda pergunta sem equacionarmos, em primeiro lugar, uma teoria que dê resposta à primeira pergunta.

O ateísta assume a posição de alguém que, perante uma determinada realidade, admite com resignação a existência de um determinismo — uma espécie de fado existencial, ou facticidade — que o impede de se questionar para além daquilo que percepciona directamente. Existe nesta posição ateísta uma espécie de “pragmatismo do estúpido”: perante a dificuldade na elaboração de teorias que resolvam determinados problemas, opta-se por fazer de conta que esses problemas simplesmente não existem. E por isso, a origem do nosso universo é simplesmente escamoteada.

Em segundo lugar — e recorrendo eu agora ao filósofo americano William Dembski — os ateístas deveriam também perguntar: “Por que é que existe o Bem no mundo?” Porém, esta pergunta não é feita pelos ateístas, e a omissão da pergunta é (outra vez) propositada. A abordagem dos ateístas ao problema da ética na sua relação (metafísica) com Deus, faz-se sempre pela negativa — coloca-se sempre o acento tónico no Mal, e faz-se de conta que o Bem não existe. Esta super dramatização ateísta do problema do Mal do Mundo (este tremendismo maléfico) tem origem no gnosticismo da antiguidade tardia, o que transforma realmente o neo-ateísmo contemporâneo numa metafísica negativa (numa espécie de religião do Mal).

Portanto, as perguntas correctas e lógicas, a serem colocadas, deveriam ser as seguintes:

  1. Por que é que existe algo em vez de nada?
  2. Por que é que existe o Bem e o Mal?

Os ateístas ignoram a primeira pergunta e só consideram válida uma parte da segunda pergunta; ou seja, os ateístas truncam a realidade para a adaptar a uma visão pragmatista e estupidificante da realidade.

Pelo contrário, a verdadeira filosofia e as religiões em geral têm sempre presente o conjunto das duas perguntas, sem o qual não existe qualquer nexo lógico quando abordamos o problema da Teodiceia. Não podemos partir a realidade a meio, e interpretar somente essa metade como se fosse a totalidade da realidade — e é isto que o neo-ateísmo faz, e quem faz isso em nome da filosofia, para além de estúpido, reduz a filosofia a uma ideologia política (no sentido iluminista : uma religião política).

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14 comentários

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14 responses to “A filosofia política neo-ateísta e o problema da Teodiceia

  1. Divina de Jesus scarpim

    Você esta mentindo descaradamente! Nao e verdade que os ateus nao se perguntem sobre a existência e o surgimento do universo, e nao e verdade que os ateus nao se perguntem sobre a existência do bem,ou que nao a admitam! Cientistas e pensadores ateus fazem isso o tempo todo, eu mesma, que sou ateia mas nao sou cientista já escrevi e já publiquei na net muito sobre isso. Vocês, religiosos, nao dizem que mentir e pecado? Então por que mentem?

    • A sua atitude é agressiva. Você chama-me de mentiroso. E quais são os seus argumentos contra a minha afirmação ? Nada! Você apenas diz que eu sou mentiroso; isso é argumento que se apresente?

      O seu comentário passou, mas se você continua a insultar sem argumentar ou justificar racionalmente os seus insultos, os seus comentários passam a ser censurados.

      Se você, sendo ateia, pensa sobre o Bem e sobre o Ser (a existência), e em vez de insultar as pessoas, seria bem melhor que expusesse as suas ideias. E a razão por que você insulta em vez de expor as suas ideias, é a de que você sabe muito bem que sairia daqui demolida com os meus argumentos. Você sabe que já perdeu a discussão, e por isso, insulta.

      • Mauri Zelindro Junior

        O seu texto é escrito de maneira extremamente habilidosa que demonstra grande conhecimento em filosofia e no idioma e defende seus argumentos com inteligência. Infelizmente, isso não o torna (o texto) menos agressivo que a resposta de “Divina”, especialmente na qualificação “pragmatista e estupidificante da realidade”. Posso argumentar que quando você diz que os ateus não consideram o problema da causa ou o problema do bem e do mal, esta afirmação nada mais é do que sua crença pessoal, absolutamente desprovida de base. Até mesmo o livro do Dawkins, que tem uma séria de falhas do ponto de vista da lógica e como dizes tu, tem militância política, ainda assim aborda estes temas com profundidade (seja ou não verdade). Outros ateus pensam de forma diferente. A não ser que o próprio deus te deu a conhecer o íntimo de cada ateu, não podes tu dizer que problemas os fazem refletir ou colocar os religiosos acima dos ateus como se esses sim se preocupassem mais com profundas reflexões filosóficas e não (em parte dos casos) apenas com a “verdade revelada” onde até a mais breve dúvida é pecado, coisa malígna.

      • O meu argumento não é só filosófico, mas é também antropológico. O ateísmo é uma filosofia (ou uma ideologia) que é parasita, do ponto de vista da cultura e da moral — da mesma forma que o capitalismo foi uma actividade económica parasita da organização económica da Idade Média, até à revolução burguesa de 1789.

        Sem a existência de uma espinha dorsal de cultura cristã, o ateísmo passa a ser uma moral negativa ou niilista. O ateísmo precisa do Cristianismo em circulação na sociedade para não cair na barbárie. Esta análise é antropológica, e nada tem a ver com a existência de uma capacidade de analisar o pensamento dos outros.

        http://espectivas.wordpress.com/2011/03/27/a-barbarie-na-inglaterra-politicamente-correcta-era-inevitavel/

  2. Fernando

    Eu, ateu convicto, vou em defesa da moça, mas apenas na questão do jogo de palavras de até então. Ela afirma que não é verdade que os ateus fazem isso ou aquilo. Aparentemente ela pelo menos não faz . Se para ela o que você ( ou qualquer um ) diz não é de fato algo verdadeiro, resta então ser mentira. E sentindo-se incomodada pelas idéias (preconceituosas) associadas aos ateus e ignorando os preceitos que a fé dá aos crentes, ela por ‘indução’ liga a palavra mentira a mentiroso. Imagino que o você, eu, ela e qualquer um fala na maioria das vezes, é a nossa verdade(…) Se vai contra o que pensam e pregam os outros, logo, o contrário de verdade vai ser mentira. E ser chamado de mentiroso pode ser mesmo um insulto na medida que a minha verdade é sempre melhor do que a sua; vão pensar todos, principalmente os que supostamente já ganharam a discussão. Se tiver a oportunidade, e gostaria de ter, vou postar minhas próprias idéias …

    • Em primeiro lugar, existem dois tipos de preconceitos : os preconceitos negativos — que são aqueles que se fecham em dogma e se recusam a ser discutidos — e os preconceitos positivos — que são aqueles que estão abertos à discussão. Por isso, toda a gente tem preconceitos; o problema de alguns é que o seus preconceitos são negativos.

      Em segundo lugar, vou aqui explicar o que é a falácia lógica ad Hominem.

      O raciocínio da Divina de Jesus Ateia (acho que ela deveria mudar o nome), é o seguinte:

      • O O. Braga diz que “os ateístas ignoram a primeira pergunta e só consideram válida uma parte da segunda pergunta; ou seja, os ateístas truncam a realidade para a adaptar a uma visão pragmatista e estupidificante da realidade.”
      • O O. Braga é mentiroso;
      • Logo, e por consequência, o O. Braga não tem razão.

      Em terceiro lugar, se o que eu digo não é verdadeiro, então resta a quem não concorda comigo (ou seja, a quem considera que aquilo que eu digo é falso) colocar em cima da mesa os argumentos que rebatam aquilo que eu disse. Não basta dizer que sou mentiroso, ou que o que eu digo é falso.

      E quarto lugar, vem o argumento clássico segundo o qual “a verdade não existe”, e que “cada um tem a sua verdade”.

      Quando se pergunta: “a verdade existe?”, quem faz a pergunta admite, à partida, a possibilidade de uma resposta ― porque caso contrário a pergunta seria absurda ― e portanto essa pessoa já pressente, ou sabe intuitivamente, que a verdade existe. O que a pessoa que pergunta não sabe, é quais são as respostas correctas e erradas à pergunta, o que significa que o facto de a verdade existir é independente do critério racional seguro que a distinga. Quem pergunta, sabe que a verdade existe; o que não tem a certeza é se aquilo que dizem — ou aquilo que ele pensa — ser a verdade, é.

      Por outro lado, se alguém afirma categoricamente que “não existe qualquer verdade”, pretende afirmar uma verdade, acabando, por isso, por se contradizer ― porque se alguém afirma algo, está convencido que a sua afirmação está correcta e que todos devem corroborar essa opinião. Por conseguinte, essa pessoa pressupõe que existem afirmações que possuem uma validade incondicional, ou sejam, verdades incondicionais. Isto significa que quem afirma que “não existe qualquer verdade” pressupõe ― mesmo que essa afirmação possa estar errada ― que a verdade e o erro se excluem mutuamente, e em consequência, existe entre a verdade e o erro uma diferença que não pode ser relativizada. Por outras palavras: quando alguém diz que “tudo é relativo porque não existe qualquer verdade”, cai em auto-contradição e no absurdo.

      A verdade está condenada à existência.

      Resulta do conflito entre “a verdade que sabemos que existe” (e por isso perguntamos) e o critério de apuramento da verdade, a contradição entre duas proposições: “nós sabemos que a verdade existe” e “nós não sabemos como (e se) a verdade existe”, sendo que estas proposições antagónicas são assumidas simultaneamente. Como as duas afirmações não podem ser válidas ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, começa aqui o problema. E razão primeira deste problema é que a razão humana é contraditória em si mesma.

  3. Fernando

    ( … )
    Você admite a possibilidade de toda a questão da divindade não ser verdadeira nem real ? Usando todos os seus conceitos e tudo mais que você chama de conhecimento, imagino que você vai responder que não. Ponto final . Eu e uma parte bem considerável dos ateus temos que o deus cristão e as demais supostas divindades são altamente improváveis ( … ) e que a visão cética se aplica para isso também.

    • Mauri Zelindro Junior

      Fernando, concordo que todas as divindades já apresentadas por qualquer povo ou comunidade são fáceis de ser comparadas a qualquer outro ser que o senso comum considera imaginário, como duendes, unicórnios e outros seres fantáticos, porém a idéia de um objeto como causa do universo, sem qualquer outro atributo considerado, tem pelo menos 50% de chance de existir. Você conseguirá continuar argumentando contra qualquer atributo das “verdades reveladas”, livros “sagrados”, dogmas, moral religiosa, etecétera, mesmo considerando que a causa fundamental do universo tenha 50% de chance de existir, como de ser ainda um efeito, e tenha num nível mais remoto uma causa, que pode retroceder a algum ponto final (efeito sem causa) ou continuar infinitamente sem existir realmente efeito sem causa.

  4. 1.Não podemos confundir “conhecimento” com “ciência”. Há muita coisa que pertence ao domínio do conhecimento que não é propriamente do domínio científico entendido como neo-empirismo (método científico). Por exemplo, a estética e a ética são áreas do conhecimento humano que não são abrangidas pela ciência.

    2.A ciência pode provar que uma coisa existe, mas não pode provar que uma coisa não existe.

    3.Qualquer pessoa que se preocupa minimamente com a questão da Causa Primeira do universo e da existência (o problema do Ser), terá que deduzir que existe qualquer coisa que deu origem a tudo o que existe. A essa coisa que deu origem a tudo o que existe — que é a Causa Primeira — convencionamos chamar de Deus. Deus é a Causa Primeira.

    4.A probabilidade de que exista uma Causa Primeira para o nosso universo é de 100%. Trata-se , aqui, de aplicar a lógica.

    5.Com todo o respeito, tenho que dizer que você tem falta de prática. Tem que estudar um pouco mais estas questões filosóficas.

  5. Fernando

    1-Eu não estou nem aparentemente você está confundindo conhecimento com ciência. Não sei porque você menciona isso com tanta enfase e com exemplo.

    2-A capacidade ou incapacidade da(s) Ciência(s) de provar a existência nesse caso é relativa(…). Por exemplo para a existência das divindades, que é algo realmente grandioso, os crentes vão dizer que as provas já estão todas aí e os descrentes vão refutá-las. Os crentes vão então dizer que os céticos são insensíveis, cegos e teimosos … Se fizermos uso da Lógica e da Filosofia, que são sim Ciências podemos chegar a conclusões que bem queremos. Você faz e chega às suas conclusões. Nós, fazendo uso dessas mesmas “ferramentas” e chegamos a outra.

    3-A tal Causa Primeira, que na verdade não me preocupa, não valeria para a origem do próprio deus, certo ? Continuamos sem resposta … Mas você deve enfantizar que deus é Deus, que “sempre” existiu, de modo que modo que , pela ( sua ) lógica , conceito ou filosofia , ele não tem origem e não tem fim.

    4 -O que existe até então nos campos das ciências que mais estudam a origem do universo, seja a Cosmologia ou a Astrofísica ( e não a Lógica nem a Filosofia ) é o concenso sobre a Teoria do Big Bang. Tal teoria, definitivamente não é uma unanimidade, mesmo entre os descrentes de alto gabarito. Essa explosão inicial de um pequeno ponto com densidade infinita é motivo de risos e chacotas de muitos mas é o que a maioria dos cientistas da área ainda tem como ‘Causa Primeira’. E quem acendeu o pavio para essa explosão ? Pergunte para esses cientistas …

    5- Tenho falta de tantas coisas… De conhecimento na grande maioria dos campos do conhecimento. De experiência de vida; tenho só 36 anos. Tenho falta de fé [ em deus] e isso não me faz falta. Acho que se eu pensasse como você, você não iria me recomendar estudar Filosofia como fez agora. Bem, de qualquer maneira, estudar é bom, principalmente se nos satisfaz . Mas tem que tomar cuidado, pois o Sam Harris, o Daniel Dennet e muitos outros filósofos são ateus … Não saberia dizer se se tornaram ateus por causa da Filosofia …

    Tenho uma pergunta para você e gostaria que caso responda, seja o mais objetivo possível:
    – Porque a grande maioria, cerca de 90-93 % dos cabeças das associações americanas de ciências são ateus e/ou agnósticos ? ( se quiser eu mostro com mais precisão esses dados mas acho que você entendeu onde quero chegar )

    • Obrigado pelo seu comentário que acabou por me dar razão quando eu escrevi :

      “Os ateístas ignoram a primeira pergunta e só consideram válida uma parte da segunda pergunta; ou seja, os ateístas truncam a realidade para a adaptar a uma visão pragmatista e estupidificante da realidade.”

      Por quê? Porque você escreveu :

      “A tal Causa Primeira, que na verdade não me preocupa”

      Portanto, você deu-me razão e tudo o resto é conversa para boi dormir. Nem valeria a pena você ter rebatido a minha opinião para vir dar-me razão um pouco mais adiante. Todos estes comentários foram pura perda de tempo.

      Assunto encerrado.

  6. Mauri Zelindro Junior

    O problema fundamental da causa primeira é apontado por muitos ateus justamente como um fator ignorado na investigação metafísica por religiosos pela conclusão de: ” o universo tem que ter uma causa” em oposição a “Deus é a causa do universo e ele próprio não precisa de causa”.
    Então, não apenas o neo-ateu se preocupa com o problema da causa como o usa para refutar o argumento de que o universo tem que ter uma causa. Considerando os objetos “deus” e “universo” o problema da causa precisa ser aplicado a ambos ou a nenhum. Só por que eu invento um conceito que diz “objeto sem causa” ele não passa imediatamente a existir a não ser na minha imaginação.
    O problema do bem e do mal é invariávelmete abordado integralmente apartir do momento em que digo “o bem existe” ou “o mal existe” pois um só pode ser conceituado ou compreendido em oposição ao outro. Abordando o problema do bem e do mal não se pode considerar diminuida ou aumentada a probabilidade da existência de deus ou deuses, mas se pode refutar absolutamente o atributo “infinitamente benigno” do conceito de deus pois como causa deliberada de cada aspecto, lei e objeto do universo, ele necessáriamente teria criado o bem e o mal, necessitando de ambos em sua natureza. Até o ateu menos culto sabe que o problema do mal é uma redução semântica para o problema do bem e do mal.

    • 1. Quando falamos de “causa do universo”, estamos a falar de dois conceitos diferentes, mas intimamente ligados entre si: “causa” e “universo”.

      2. A causa implica uma sequência causal de tipo causa / efeito semelhante à que existe nas leis da física. Ou seja, implica o determinismo dessa sequência causal.

      3. O universo é concebido como a “matéria” que está sujeita a esse tipo de sequência causal. A matéria pode ser definida como sendo “tudo aquilo que tem massa”.

      4. Porém, existe aqui um problema: nem tudo aquilo que existe no universo tem massa — aliás, a densidade média da matéria em todo o universo foi calculada pelos astrofísicos em uma partícula elementar longeva (átomo, electrão, protão, neutrão, etc,) por metro cúbico. As Partículas Elementares Longevas, quando em forma de onda, não têm massa e por isso não são matéria.

      Aquilo que é matéria, e portanto, tem massa, existe devido à acção da força entrópica da gravidade. Portanto, o universo tal qual o vemos a nível macroscópico existe devido à acção entrópica da gravidade, e tem o seu fundamento e condição em uma realidade totalmente diferente — que é a realidade quântica — onde as Partículas Elementares Longevas podem existir sem massa, e por isso não são matéria. E é esse universo material que está sujeito ao determinismo das sequências causa / efeito tal como as leis da física descobriram.

      5. No mundo quântico, o determinismo causal não existe (ver princípio de Heisenberg).

      6. Quando falamos em “causa do universo”, temos que nos referir a uma coisa que esteja para além do universo (fora do universo), porque não faz sentido lógico que a causa e o efeito de uma coisa tenham uma idêntica natureza. Se a natureza da causa é a mesma ou idêntica à natureza do efeito, então não pode ser a causa deste último porque participa dele.

      7. Esta é a grande confusão, algumas vezes propositada, dos neo-ateístas, desde Espinoza: dizem que a causa (Deus) tem a mesma natureza do universo (que é o efeito), esquecendo-se que se eu sou a causa de alguma coisa, não posso participar da natureza do efeito que produzo. A causa e o efeito têm necessariamente naturezas diferentes.

      8. O Zero Absoluto (ver no Google) é a temperatura que paralisaria o universo. Esta temperatura existe teoricamente, calculada pelos matemáticos e astrofísicos, mas nunca foi experienciada, exactamente porque se o universo atingisse o Zero Absoluto, então (o universo) deixaria de existir (o tempo parava, e o universo entrava em desintegração).

      9. Em função da noção de Zero Absoluto, verificamos um conceito que “existe mas não existe”. Existe porque é uma possibilidade matemática, e não existe porque nunca ninguém a experimentou nem viveria depois para contar como foi.

      10. Verificamos, então, que o universo existe com uma temperatura superior ao Zero Absoluto; essa temperatura do universo, distante do Zero Absoluto, é de essencial importância para a sobrevivência material do universo. Se o universo chegasse a uma temperatura de Zero Absoluto, perderia calor; o Zero Absoluto é a ausência total de calor, na medida em que o modo de ser do universo é bem mais quente do que o Zero Absoluto.

      11. De modo idêntico, e fazendo uma analogia, o mal é a ausência do bem. O bem é a forma do Ser. Tudo o que existe É, e não pode Não-Ser. O universo está destinado a Ser, até que a causa dele (que lhe é externa) possa determinar ou decidir da sua existência.

      http://espectivas.wordpress.com/2011/03/12/a-tragedia-do-japao-e-a-teodiceia/

  7. Helio Fernandes

    O . Braga…. seus argumentos tem muita fundamentação.Gostei muito de ler seus comentário.
    Um abraço
    Saude e paz,

    Fernelio

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