O cientismo e a traição dos intelectuais (1)

Ao longo da sua imensa obra literária e filosófica, Karl Popper (na imagem) demonstrou que a objectividade do cientista, entendido como indivíduo, não existe — e esta realidade aplica-se não só às ciências sociais como às ciências da natureza. O que torna a ciência objectiva é toda uma estrutura composta pelas instituições que, numa sociedade onde exista um alto grau de liberdade política, se dedicam à ciência (universidades, colóquios, congressos); é também a concorrência saudável entre cientistas e, em consequência, podemos dizer que a objectividade da ciência depende da análise crítica das teorias, independentemente do cientista ou cientistas que as concebem.

Porém, convém aqui dizer que também se demonstrou que a maioria das teorias científicas são falsas, e esta tese é também corroborada pelo académico grego John Ioannides, um dos maiores especialistas mundiais sobre estatística da ciência. Ioannides vai mais longe: de uma forma geral, quanto mais “bombástico” for o anúncio nos me®dia de uma nova descoberta ou de uma nova teoria, maior probabilidade estatística existe de que essa descoberta ou teoria sejam falsas.

Portanto, um cientista contemporâneo é, normalmente, e antes de o ser, um mau filósofo; ou melhor : um sofista. É impossível que a sua “nova teoria” seja asséptica ou objectiva, e só a análise crítica pode deduzir realmente a sua objectividade, verdade ou falsidade. Esta asserção foi demonstrada pela própria realidade dos factos.


Quando Carl Sagan disse que “o cosmos é tudo o que existe, existiu ou existirá”, não estava realmente a fazer ciência, mas estava a fazer filosofia. A proposição não é científica na medida em que ela própria não transporta consigo os meios da sua refutação. Não sendo parte da ciência, a proposição pretende ser filosófica, mas também aqui falha o seu propósito, porque a certeza implícita na proposição condu-la mais a uma doutrina metafísica dogmatizante do que a uma teoria filosófica propriamente dita.

Por outro lado, Sagan tem a pretensão de definir a realidade. Quando eu digo “definir”, não se trata de elaborar uma definição subjectiva (o que é legitimo), mas de transformar a subjectividade da sua (dele) definição numa verdade objectiva, tirando partido de uma sancionada e consensual autoridade de direito. O comportamento de Sagan é objectivamente anticientífico e antifilosófico.

Do ponto de vista filosófico, Sagan assume publicamente o dogma do “efeito sem causa” que também contaminou Stephen Hawking no seu recente livro — o que reflecte a cultura decadente que invadiu a ciência contemporânea por via do cientismo, e da manipulação da investigação científica das grandes corporações pela política correcta. Portanto, a análise crítica das teorias científicas está em risco, e com ela a objectividade, porque a liberdade política tem vindo a ser paulatinamente reduzida nas sociedades ocidentais.

Por último, e mesmo a nível da ciência teórica propriamente dita, Sagan incorre em desonestidade intelectual: na medida em que o cosmos só pode ser, no seu (dele) entendimento, intrínseco à matéria, o que Sagan diz é que “a matéria é tudo o que existe, existiu e existirá” — sendo que a matéria é por definição tudo aquilo que tem massa. Ora, há muito tempo que a não-localidade quântica era falada no mundo da ciência, desde as experiências de Bell em princípios dos anos sessenta; Sagan tinha a obrigação de saber que o conceito de não-localidade exigia a existência de Partículas Elementares Longevas que, em determinadas circunstâncias e quando em função de onda, são desprovidas de massa e que, por isso, não podem ser consideradas como sendo propriamente “matéria”. Ou seja, Sagan tinha obrigação de saber que no cosmos já conhecido pela ciência, nem tudo é matéria.

A subjectividade de Carl Sagan — a fé do cientista, que é a maior de todas porque é inconfessável — induziu em erro centenas de milhões de pessoas que passaram a acreditar no mito de que não existem mitos, e não se deram conta de que o anti-mito naturalista de Carl Sagan é o mais poderoso dos mitos do mundo contemporâneo — só que é um mito perverso, filosófica e eticamente negativo.

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Filed under Filosofia, religiões políticas

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