Resposta a um comentário sobre Deus, transcendência, imanência e emanação

Resposta a um comentário sobre Deus, transcendência, imanência e emanação:

Uma coisa é “emanação”, que é um conceito do neoplatonismo (Plotino, Proclo, etc), e outra coisa é “imanência”, que é um conceito ligado ao panteísmo (por exemplo, Espinoza) e aos monismos religiosos, sejam estes espiritualistas (Hinduísmo, Confucionismo, etc) ou materialistas (marxismo, nazismo, naturalismo).

No Budismo, a imanência prevalece na maioria das correntes religiosas búdicas, por exemplo no Zen chinês (ou Tchan) e no Budismo japonês, mas existe uma corrente búdica, o tantrismo, da qual evoluiu o lamaísmo tibetano do Dalai Lama, que embora sendo um monismo religioso (a individualidade do sujeito acaba por diluir-se no Todo e desaparecer como individualidade: o Nirvana), admite a transcendência (o Nirvana é transcendente à matéria e à imanência do Sam-sara ou Samsara) , e por isso, não é uma religião com uma filosofia imanente no sentido estrito do termo.

A emanação neoplatónica descreve a forma como o Uno (Deus) terá dado existência por emanação, em primeiro lugar, ao Nous (Logos), e deste emanou a Alma (o espírito) e finalmente, surgiu, por emanação, a matéria. Eu escrevi dois postais sobre o assunto, com o título genérico: “Plotino e quântica”.

Aliás, no postal que deu origem a esta série de comentários — “O problema da Teodiceia” —, descrevi a diferença entre os dois conceitos.

O problema da emanação é que não é totalmente compatível com o Deus pessoal do Cristianismo. Para o Cristianismo, Deus é pessoal na medida em que é acessível a todos os seres humanos, cada um acedendo a Ele segundo a sua própria subjectividade pessoal. Entra aqui o conceito cristão de “Graça”, que é a qualidade de Deus em atender e ajudar o indivíduo, de forma gratuita e sem lhe pedir nada em troca senão a fé. Nos dois outros monoteísmos universais, o Islamismo e o Judaísmo, Alá e Javé são quase-pessoais, enquanto que no Cristianismo, Deus é pessoal. O Cristianismo levou o processo de individuação religiosa ao seu máximo possível, o que permitiu a viragem subjectiva do Renascimento europeu e o desenvolvimento da ciência. A partir do século XIX, o Judaísmo europeu sofreu uma reforma, e nesta corrente reformista, Javé passou a ser pessoal 8como o Deus cristão).

Dizia que o problema da emanação é que não é totalmente compatível com o Deus pessoal do Cristianismo, porque a emanação neoplatónica implica um Deus que não age directamente sobre o mundo — o processo de emanação é indirecto e decorrente da Sua própria existência, e não “por vontade de Deus”. No Cristianismo, o carácter pessoal de Deus permite-lhe, através da Graça Divina, agir directamente no mundo , seja através de interposta entidade (o Logos ou o Verbo, que no Cristianismo é Jesus Cristo), ou mesmo directamente caso seja de Sua vontade.

Na minha opinião, a forma de conceber Deus é a de uma entidade (Ser) que está na origem da existência do Ser material (matéria atómica) e do Ser imanente (não-matéria quântica) , mas que não pertence — no sentido de ser da mesma qualidade — nem ao primeiro nem ao segundo. Contudo, e não obstante não ser da mesma qualidade da realidade material e da realidade imanente, e na medida em que está na base da existência destas duas realidades, Deus tem a qualidade da omnipresença (temos um vislumbre ou uma pequena amostra daquilo que é a omnipresença através da qualidade das ondas quânticas em se deslocarem no universo quase simultaneamente e sem dependerem do espaço-tempo; ver no Google: “não-localidade quântica”, ou “quantum non-locality”).

Além disso, Deus é omnipotente porque tem o poder de dissolução de todo o universo, na medida em que Ele é a Consciência que, através da sua omnipresença, permite que o universo exista — podemos ter um vislumbre ou uma pequena amostra do que é a transformação de uma onda quântica (que não é matéria porque não tem massa) em uma partícula elementar longeva (que é matéria porque tem massa) por acção de uma consciência, através do seguinte vídeo:

http://www.youtube.com/v/KPePLeSgYtU

Em resultado da sua omnipresença e omnipotência, Deus é omnisciente, não no sentido de interferir de uma forma determinística com a liberdade das consciências do universo, mas no sentido em que O Criador conhece as criaturas. Este é o Deus pessoal cristão, que é transcendente ao Ser material e ao Ser imanente.

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