A linguagem ininteligível das religiões políticas

Se um extra-terrestre pudesse ler este artigo (via), ficaria com a ideia de que a História humana teria começado com a revolução francesa. No caso do autor do texto, não sei se ele o faz com uma intencionalidade política, se por um mimetismo cultural. Seja como for, começar a História a partir de 1789 faz sentido à esquerda, assim como para o Islão teve vantagens óbvias começar a contagem do tempo cerca de 600 anos depois de Cristo; trata-se de um dos métodos clássicos de fundamentar uma religião (neste caso, uma religião política).

O texto é longo e vou fazer apenas algumas anotações.

  1. Quando se diz : “Porque se a esquerda tem inscrita no seu código genético a palavra «utopia», ela própria, inspirando-se em valores projectados no futuro e numa forte «ética da convicção», cruza inevitavelmente, mais do que os liberais, o seu destino com o da democracia representativa.”

    Fica a pergunta: por quê que o destino da esquerda se cruza inevitavelmente e mais do que os liberais, com a democracia? — porque, para mim, a verdade dessa proposição não é evidente. A resposta não é dada no texto. A esquerda tem uma natural aversão às definições. Quando afirmamos seja o que for devemos incluir as razões da afirmação em complemento da proposição, sob pena de estarmos a lavrar em dogma.

  2. A noção de “ética da responsabilidade” é tautológica porque não existe a “ética da irresponsabilidade”. A irresponsabilidade não é ética. A ética implica por sua própria natureza a noção de responsabilidade. Mas demos de barato o conceito de “ética da responsabilidade” no sentido da assunção da ética.

    Ora isso significa que existe uma contradição entre a ética da responsabilidade e a ética da convicção (para utilizar a terminologia do autor); ou no mínimo, as duas éticas não coincidem nas suas hierarquias valorativas — os meios de uma para atingir os seus fins não são os meios da outra; o que distingue as duas éticas são os meios e não os fins, e por isso, ambas as éticas são teleológicas (embora com meios diferentes entre si) e não ontológicas.
  3. A dicotomia entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade faz um paralelismo entre o dualismo clássico entre instinto e razão. A primeira é o desejo, a segunda o pragmatismo. Ora o desejo não é, por si só, determinativo da liberdade, que depende da vontade que é mais do que o desejo.

    Por outro lado, se a ética da convicção é, segundo o autor, a própria vontade (e não o mero desejo), a liberdade é, então, o produto do crivo ou peneira da vontade pela razão (vontade + razão = liberdade). Neste sentido, também não pode haver diferença, em uma mesma entidade, entre liberdade e responsabilidade — como está implícita no texto do autor. O que pode existir são diferenças na noção de responsabilidade, em entidades distintas entre si, dependendo do grau ou capacidade de discernimento (razão) que filtra a vontade em cada uma dessas entidades. Em qualquer dos casos, mesmo que subjectivemos a questão, a liberdade é sempre a própria responsabilidade e não podem ser separadas uma da outra.
  4. Sobre a proposição segundo a qual a “igualdade” faz parte do ADN da esquerda e não da direita. Em primeiro lugar, teríamos que definir o que é esquerda e o que é direita, mas isso levaria a explanação a uma complexidade que não cabe aqui e agora. Depois, teríamos que definir “igualdade”. No texto, ficamos sem saber o que é a “igualdade” para o autor.
  5. Em filosofia política, igualdade é o princípio segundo o qual os indivíduos, no seio de uma comunidade política, devem ser tratados da mesma maneira. Portanto, a igualdade é cívica e política (de direitos) como garantia de dignidade igual; e pode ser, em acréscimo à primeira, igualdade social (marxismo). “Ser tratado da mesma maneira” não significa uma discriminação positiva de uns em relação a outros (excepto em casos de incapacidade manifesta e evidente do cidadão) porque essa discriminação positiva é garantia de privilégios e não de direitos — a garantia dos direitos básicos exerce-se em função da equidade e não da igualdade.

    Através do conceito de “igualdade”, não podemos transformar pessoas diferentes em pessoas iguais senão através de engenharias sociais e violência sobre a sociedade e o ser humano.

    A “igualdade” só existe nos direitos básicos; a noção de “equidade” (que é a “igualdade de condições”, de Tocqueville) já existe desde o tempo de Aristóteles, ainda não se sonhava com o princípios dos tempos da esquerda e da revolução francesa.

  6. Diz o autor que “os valores matriciais da direita são a ordem, a diferença (a desigualdade) e a hierarquia”.
  7. A ideia esquerdista segundo a qual a diferença descamba irremediavelmente na desigualdade, é extraordinária, porque parte do princípio absolutamente irracional de Procrustes. Para a esquerda, a equidade é, ela mesma, sinónimo de desigualdade, o que dá ideia do delírio do gnosticismo moderno.
  8. Mais uma vez, teríamos que definir “ordem” e “hierarquia”. E teríamos que saber se os sistemas soviético e cubano são de esquerda ou de direita. E teríamos de saber se nestes sistemas existia ordem e hierarquia, e existindo, se seriam de direita.
  9. Diz o autor que Nietzsche é de direita, alegadamente porque defendeu uma aristocracia radical. Se Nietzsche era de direita, e na medida em que se opôs à “direita” do seu tempo, das duas, uma: ou essa direita conservadora do tempo de Nietzsche era de esquerda, ou Nietzsche era um revolucionário; e se Nietzsche era um revolucionário, seria de esquerda ou de direita?

    O autor não compreende uma coisa absolutamente essencial: a defesa de uma aristocracia não define a esquerda ou a direita neoliberal, porque existem elitismos em ambas as religiões políticas.

E chegado aqui, e perante tantas indefinições e mesmo contradições, a tarefa de desconstruir o texto torna-se absurda — ele não é passível de desconstrução porque não é construído.

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Filed under ética, Filosofia, política, religiões políticas

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