A democracia moderna e as religiões políticas

Comentando este texto, não interessa, em princípio, saber quem o escreveu, mas apenas os símbolos que nos são transmitidos através do discurso. Contudo, posso afirmar aqui que a análise de Dominique Venner é incorrecta; não digo que ele não conheça a História: digo que provavelmente ele re-interpretou a História à sua maneira, alterando dos factos.

Desde logo, a democracia liberal em Inglaterra apareceu com os filósofos ingleses do senso comum, como John Locke, e decorreu do fenómeno da guerra civil inglesa entre puritanos e tradicionalistas, depois da tentativa de tomada do poder por parte daqueles em 1688. Portanto, já no século XVII existia em Inglaterra pelo menos a liberdade de expressão, salvo se essa liberdade de expressão atentasse contra a dignidade do rei.

Basta lermos alguma da literatura da Baixa Idade Média para sabermos que existia então mais liberdade de expressão por parte dos povos da Europa em geral, do que existe hoje em alguns países totalitários. E mesmo na Alta Idade Média, em plena sociedade feudal, os populares eram livres de escolher ou abandonar os seus senhores feudais, emigrando para as terras de outros senhores feudais caso não concordassem com a política do feudo onde se encontrassem ― o que pressupunha, pelo menos, liberdade de discordância em relação ao senhor feudal, e portanto, de uma certa liberdade de expressão e de movimentos.

Se a democracia liberal tem como principal característica a liberdade de expressão, que é a sua essência e que permite a organização política múltipla, então podemos dizer que até na Idade Média existia uma certa dose de democracia liberal, porque a liberdade de expressão nunca foi totalmente erradicada na sociedade medieval, enquanto que ela foi eliminada nas sociedades totalitárias do século XX que se organizaram a partir do Iluminismo.

Por outro lado, é falso afirmar que os sistemas totalitários se organizaram a partir da crise financeira de 1929. Totalmente falso, o que é até uma vergonha para Dominique Venner (DV), e por isso podemos constatar de facto a sua fragilidade intelectual. Mussolini assumiu o poder em 1925, e Lenine em 1917. O partido nacional socialista já existia de forma organizada desde princípios da segunda década do século passado.

Enquanto em Portugal o rei reuniu as Cortes, nunca existiram sublevações populares ou guerras civis, porque o povo estava presente nas Cortes através de delegados directos de cada região do país e manifestava, assim, a sua opinião. Portanto, quando DV diz que os reis não se preocupavam com a opinião do povo, está, mais uma vez, errado. Alguns reis não se preocuparam com a opinião do povo, como o rei de França Luís XVI que acabou na guilhotina por ele próprio contribuir fortemente para a revolução francesa: quando finalmente o rei acedeu a reunir os estados gerais (povo, clero e nobreza) já a revolução andava à solta nas ruas de Paris e a Bastilha ocupada.

Quando o nosso rei D. Pedro V aboliu as Cortes em meados do século XIX, contribuiu decisivamente para o caminho da república jacobina. Se as Cortes continuassem a existir como um sistema de consulta real que funcionasse em paralelo ao rotativismo parlamentar do século XIX, provavelmente ter-se-ia evitado o desvario da primeira república, o desprestígio internacional da segunda, e a descredibilidade total da terceira. Foi o abandono da tradição das Cortes, em nome do “modernismo” do parlamento multipartidário, que gerou a república jacobina ― e a culpa foi dos reis que tivemos que não souberam conciliar a tradição com a modernidade. A verdade é que era possível conciliar os dois sistemas, desempenhando as Cortes uma função consultiva, como existiu em Inglaterra em paralelo com o parlamento (o parlamento reúne todos os dias, as Cortes reúnem a cada lustro, ou decénio).

Não é possível compreender o que se passa hoje na política sem compreender, pelo menos, as origens da organização política europeia e a sua evolução em função da herança do império romano, da cultura e filosofia gregas, e do surgimento do cristianismo. É compreendendo o que está para trás que podemos compreender o que existe hoje.

DV faz parte do problema do modernismo, e não da solução, porque ele próprio abraça uma religião política que, como todas as religiões políticas, se transformou numa facção reactiva em relação a outras religiões políticas gnósticas que evoluíram a partir do Iluminismo. Em termos da dialéctica hegeliana, DV é a antítese de uma tese ou vice-versa, é um produto da visão hegeliana da História que esteve na origem dos totalitarismos e a carnificina do século XX. Ele é um produto da visão hegeliana do Estado ― que obviamente não existia antes de Hegel ― que refinou o absolutismo real existente a partir das Luzes, e que teve a sua expressão em Portugal com D. João V, D. José I e o seu marquês de Pombal; a partir daí, foi o caminho inexorável para a república jacobina e para a decadência civilizacional imposta pelas religiões políticas.

Em suma, os intelectuais politizantes pós-modernos enganam-se quando colocam o problema da crise do modernismo isolado das suas causas. No seu livro “As Religiões Políticas”, Eric Voegelin escreveu:

« Não existe nenhum pensador importante do mundo ocidental que não saiba ― e não o tenha exprimido ― que este mundo se encontra numa grave crise, num processo de esgotamento cuja fonte se encontra na secularização do espírito, na separação de um espírito que se tornou somente mundano, que se separou das suas raízes e que não sabe que a cura só pode ser trazida por uma renovação religiosa, quer no quadro das igrejas históricas quer fora delas.

A renovação só pode partir de grandes personalidades religiosas ― mas é possível a qualquer um estar pronto e fazer o que puder para preparar o solo donde se erguerá a resistência contra o Mal. »

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Filed under Filosofia, Geral, política, religiões políticas

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