A liberdade

« Há duas liberdades: a falsa, na qual o homem pode dizer o que quiser; a verdadeira, na qual o homem pode fazer o que deve. »

Esta proposição foi respigada da caixa de comentários deste postal no blogue radical de esquerda, Jugular.

Reparem, em primeiro lugar, que se equiparam, num mesmo plano de conceitos, tipos de acções diferentes : dizer e fazer. Dizer é um tipo de acção diferente de fazer. Quem diz, só por isso, não realiza actividade. Dizer é realização e actividade em potência, mas não é, por si só, acção transformadora da realidade. O discurso não é sinónimo de desempenho automático e concreto da mudança da realidade.

Portanto, é um erro de lógica equiparar, numa mesma proposição, o “dizer” com o “fazer”.

A segunda falácia da proposição é sugerir que existe uma falsa liberdade e uma verdadeira liberdade, sem explicar as causas que levam à definição da distinção, limitando-se antes a descrever as consequências ou os efeitos da distinção entre as suas liberdades. Na definição das “duas liberdades” (a falsa e a verdadeira) o que é ressaltado é o seu aspecto exterior ou fenoménico ― dizer e fazer ― ou a expressão exteriorizada da acção.

Se eu dissesse: “Um relâmpago é uma descarga eléctrica”, a definição de relâmpago estaria mutilada. Teria que explicar também porque é que essa descarga eléctrica ocorre, ou seja, as condições de causalidade ― pelo menos as conhecidas pela ciência ― para que o relâmpago possa acontecer, sob pena de estar a mutilar a definição de relâmpago. A definição é o enunciado que formula a essência de um ser ou de uma coisa (Aristóteles) e não somente a descrição exterior de um fenómeno.

Ora as definições das “duas liberdades” traduzem somente a exteriorização dos fenómenos, e não as essências (o homem “diz” e “faz”).

A essência (a causa) da liberdade é a vontade. O homem age porque é livre, e não é livre porque age. A liberdade existe previamente à acção e depende da vontade filtrada pelo juízo ou razão. Eu não posso dizer que sou livre porque faço (ou digo) o que quiser, mas antes posso dizer que faço ou digo o que quiser porque sou livre e detentor de uma vontade.

Naturalmente que tudo aquilo que faço ou digo ― a minha liberdade ― é produto da minha vontade filtrada pela minha consciência. Coisa diferente da liberdade, é a ética, e nomeadamente a ética do dever de Kant. Quando se diz que “o homem pode fazer o que deve”, isso significa que a acção da escolha (a acção da consciência que é a instância onde a escolha ou escrutínio do acto da vontade é feita) deve seguir o imperativo categórico ético segundo qual devemos fazer aos outros aquilo que gostaríamos que nos fizessem. Porém, o imperativo categórico tem um cariz eminentemente ético, e nunca restritivo da liberdade.

Em suma: quando se diz que um homem age porque é livre, sendo a liberdade o produto da vontade escrutinada pela consciência, isso significa que essa liberdade é genuína e nunca falsa. O que podemos questionar e criticar são os critérios da consciência que determinam a escolha, que pode ser positiva ou negativa. Mas não existe nenhuma legitimidade definida de forma apriorística que possa condenar a liberdade ― ou atribuir-lhe uma validade negativa ― na sua condição de produto da vontade individual.

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Filed under ética, Filosofia

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