A decadência da Atenas contemporânea

A ilusão pessimista e europeia da decadência da humanidade tem como base a fixação intelectual sobre o destino da Europa. O historicismo pessimista de Oswald Spengler reflecte essa obsessão com a Europa, que tal como Atenas ― com a implosão da polis ―, criou uma ideia de decadência global que não existia na realidade.

Depois da guerra do Peloponeso e da brutalidade inominável e degradante, Atenas entrou em decadência em função da política que se degradou na polis; diz o mito grego que foi então que a deusa Atena, protectora da polis, “mudou de lado” depois de ter sido insultada no seu próprio templo, e condenou a sua própria cidade à decadência política e cultural: surgiu, então, o relativismo do tempo dos sofistas (os iluministas da Grécia Antiga).

Neste ambiente relativista e culturalmente decadente de Atenas, aparece Sócrates, e mais tarde, Platão e Aristóteles. Para estes três filósofos, existia a sensação da inevitabilidade da decadência do mundo, apesar das suas mensagens de renovação da “verdade da alma”; essa sensação de decadência do mundo existiu a partir da tendência natural humana (determinada por uma axiologia cosmológica do Homem que nunca desaparecerá enquanto existir o Homem) para considerar o seu país, a sua cidade, e até a sua casa, como o centro do mundo.

Porém, e ao mesmo tempo que Atenas se afundava na incoerência e na desordem do iluminismo sofista, os filósofos pós-socráticos edificaram na cidade as suas academias, afastadas do buliço relativista e decadente da cidade, quais santuários da verdade da alma. E foi a partir dessas academias atenienses que a velha verdade da alma voltou a viver nas civilizações que se seguiram, seja a da civilização islâmica, seja através do cristianismo que determinou a civilização europeia.

O famoso historiador inglês Arnold Toynbee demonstrou que as civilizações não são mundos absolutos fechados em si mesmos (como defendia Spengler), e que por isso, mesmo a actual decadente Europa tem a possibilidade de se reorganizar na eunomia (a “boa ordem”) cosmológica que está sempre presente na construção de todas as civilizações, tudo dependendo da capacidade de iniciativa e de um certo grau de liberdade dos membros das sociedades europeias.

Mas mesmo que a Europa decaia sem remissão, concerteza que ela não é o centro do mundo. E as ideias das poucas “academias” de filósofos que agora defendem o ressurgimento da verdade da alma e a eunomia, florescerão certamente noutra realidade que não na Europa que se transforma na Atenas da nossa contemporaneidade.

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Filed under Filosofia, política

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