Descartes tinha razão


« Entretanto, como explicar o erro? Como poderia Deus deixar que o erro existisse? »

O processo de conhecimento racional (material, físico) é um processo de “tradução da realidade”, e não um “reflexo da realidade”. Os nossos sentidos traduzem a realidade, e esta não é entendível por nós através de um processo reflexivo [a realidade que se reflecte directamente, tal qual ela é, no nosso pensamento]. O olho da rã não vê a forma da sua presa (a mosca), mas percebe o movimento do seu voo ― através de um processo de “tradução” da sua realidade material, através dos seus sentidos; os sentidos da rã não “reflectem” a sua realidade tal qual ela é, mas “traduzem” essa realidade. De modo semelhante, ao ser humano escapam muitos detalhes da Realidade (com maiúscula, porque engloba das diversas realidades).

Se ao ser humano escapam muitos detalhes da Realidade, isso significa que o erro é humano e não é uma característica da Realidade multidimensional que lhe escapa. De igual modo, poderíamos dizer que a culpa do erro de tradução da realidade da rã é dela própria e da sua condição de rã, e não do mundo englobante. Existe um condicionalismo físico objectivo que limita a tradução da realidade, por parte da rã.

Porém, o ser humano tem uma capacidade que a rã não tem: o pensamento, que torna visível o invisível.

O problema do pensamento é que, por vezes, ele próprio provoca a ocultação do Real, quando o Homem confunde ― através da racionalização ideológica ― o racional, o irracional, o arracional e o super-racional, e neste caso, o pensamento faz exactamente o contrário do que deveria fazer, ou seja, torna invisível o que é visível. As ideias e as palavras necessárias a qualquer concepção (conceito) [por vezes e quando inseridos em concepções dogmáticas] enganam-nos e cegam-nos. As teorias contêm o seu próprio veneno e correm o risco permanente de se fossilizar e de fechar em doutrina que conduz ao dogma.

O dogma (seja ele científico-positivista, ideológico-político, religioso-fundamentalista, etc.) transforma o Homem na rã que não vê a forma da mosca mas apenas o seu movimento, desfoca a tradução da Realidade nas suas múltiplas dimensões. Portanto, a eliminação do erro é a busca da verdade através da mente aberta às várias estruturas do Real que contêm em si a matéria, o espírito, o sujeito, o objecto, e o Englobante (Deus) ― é a consciência humana da existência do racionalizável e do irracionalizável, à luz da nossa definição de conceitos inerentes a uma Realidade Total que, esta última, é impossível de definir pelo ser humano. A própria aceitação dos limites do conhecimento racional é uma forma e um caminho para a eliminação do erro.

Portanto, o erro existe na condição humana e não pode ser atribuível a Deus, assim como o erro da rã não pode ser atribuído ao mundo que a rodeia. Porém, o Homem possui as condições objectivas ― através do pensamento ― de ir eliminando o erro através do entendimento da existência das várias estruturas do Real, e esse processo de eliminação do erro depende da vontade que determina a sua liberdade.

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2 comentários

Filed under Filosofia

2 responses to “Descartes tinha razão

  1. Essa sua passagem a respeito do Real da cognição humana têm muito a ver com Kant em sua Lógica e Dialética transcendental.
    No esforço do homem de pensar a respeito daquilo que não possui realidade objetiva caí, no que Kant denomina, dialética, ou, conhecimento da aparência.
    Esse conhecimento é impregnado pelo fantasma da metafísica, Kant acredita ser errôneo pois não tem conhecimento empírico.
    Creio que seu texto está mais kantiano do que cartesiano.
    Mesmo assim está ótimo.

  2. A linguagem que utilizei aqui teve como objectivo a simplificação porque não é possível outra coisa num blogue.

    Eu não estou de acordo com a sua análise do postal, e explico por quê.

    Em primeiro lugar, a noção kantiana de “substância” é ela mesma a tentativa de “conhecimento da aparência”, pelo que Kant cai em contradição e naquilo a que alguém chamou de “paralaxe cognitiva” (ver no Google).

    A “metafísica” entendida como a “dimensão espiritual transcendente” é uma das estruturas do real, embora não possa ser sujeita ao método científico positivista. É neste sentido, do “dualismo” da realidade, que este postal é mais cartesiano do que kantiano.

    A dúvida racionalizada e modernista acerca do conceito de Deus, ou seja, a utilização da racionalização (que não é racionalidade) no que respeita à realidade da dimensão espiritual transcendente, levou a que a dimensão espiritual e transcendente ― que pertence a uma das estruturas da realidade ― passasse a ser considerada imanente, o que significou a redução da própria realidade humana à racionalização mítica. O homem deixou de ser o que é na sua realidade para passar a ser aquilo que a racionalização quer que ele seja.

    Através da racionalização mítica que deturpa a realidade múltipla do homem, os símbolos humanos que decorrem da sua “experiência intersubjectiva” (experiência individual compartilhada com a comunidade em que vive) adquiriram vida própria e desligaram-se da própria experiência humana através do “filosofar iluminista” ou “filosofar sofista”.

    O que é um mito não é ― nem pode ser ― a experiência humana do transcendente compartilhada através da intersubjectividade; essa experiência todos os seres humanos a têm, embora alguns (como o homem não-religioso moderno) a recalquem para o nível do inconsciente que passa, assim, a comandar os seus comportamentos.

    O que é um mito é racionalização que transforma a própria experiência humana em mito, sendo certo que a estrutura da realidade que diz respeito ao transcendente ― e que é mais ou menos experimentada por todos os seres humanos ― não é possível de se transformar em objecto do método científico positivista em que se baseia as ciências da natureza.

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