O “casamento” gay e a racionalização ideológica da esquerda

Cada vez mais ― e utilizando a linguagem das religiões políticas ― aquilo que era visto como sendo a “reacção” tradicional há trinta anos, torna-se “resistência”, e aquilo que se conota hoje com a herança da “revolução”, torna-se “reaccionário”. Isto porque os radicalismos de esquerda ― de tipo bloco de esquerda (oriunda do trotskismo) e até mesmo o partido comunista (de herança estalinista) ― mudam radicalmente de sentido. No caso do bloco de esquerda, então, a deriva é tão clara que salta à vista: a ideia marxiana da construção do socialismo, rumo à sociedade comunista, permanece afixada no programa de intenções, mas abrange agora já o reino de uma nova classe politicamente correcta com uma acção baseada na racionalização ideológica do discurso, e a escravização estatutária não só das classes operárias como das classes médias, revelando a máscara de novas ditaduras totalitárias.

A partir do momento em que a revolução se torna “reaccionária”, a reacção tradicional torna-se “resistência”.

A principal característica do novo reaccionarismo é a tentativa de alienação das massas através da extensão da racionalização política a todas as esferas da vida em sociedade (económica, política, social, cultural, etc.), em detrimento da noção de “racionalidade”. A racionalização substitui a racionalidade.

A recente lei da equiparação das uniões gays ao casamento, aprovada pela esquerda e ignorando uma petição popular para a realização de um referendo, é um exemplo através do qual se constata que a racionalidade ― ou razão ― é preterida pela racionalização político-ideológica. É através dessa racionalização ideológica (que aliena as massas) que se vai construindo as bases do novo totalitarismo.

Em termos simples, a racionalidade existe não só no edifício teórico (na estrutura de uma determinada teoria) como existe através do diálogo com a experiência, e com o mundo exterior que é concreto e objectivo. A perversão da racionalização política por parte da esquerda portuguesa, é a de que utilizando o argumento da “abertura às novas experiências” ― que é um argumento/característica da racionalidade ou da razão ― acabam por racionalizar a realidade, o que é uma impossibilidade objectiva, ou seja, utilizam um argumento racionalizado para negar a razão.

A racionalização baseia-se no princípio de que o real é a todo custo e totalmente racionalizável ― ao passo que a razão (racionalidade) reconhece que é impossível definir o real mas apenas conceitos, e que uma grande parte do real é irracionalizável.

A racionalização consiste na construção de uma coerência lógica a partir de premissas incompletas ou erróneas, e/ou a partir de um princípio discursivo redutor. Assim, em nome da racionalização da noção de “igualdade”, a esquerda recusa-se a dar crédito à realidade empírica e experiencial que contradiz a aplicação da noção de “igualdade” em determinadas circunstâncias.

A partir do momento em que o acto homossexual é considerado “igual” ao acto sexual propriamente dito (heterossexual e natural) ― como afirmado no púlpito do parlamento português pelo deputado socialista e homossexual Miguel Vale de Almeida ―, estamos em presença de um processo de racionalização e não de racionalidade. A razão transformada em “racionalização”, ergue-se acima dos factos e torna-se superior à constatação experiencial da realidade.

Ao contrário da racionalização que se sobrepõe aos factos e os anula, a racionalidade coloca em causa as suas construções intelectuais logo que a experiência as contrarie de uma forma repetida e confiável. A racionalidade é científica (no sentido do método) e a racionalização é mítica.

Por outro lado, a racionalização caracteriza-se por um excesso de exercício lógico em relação à esfera do empírico (da experiência) e pela recusa da realidade tal qual ela se nos apresenta com toda a sua complexidade. A racionalização é uma das características do “filosofar iluminista”, em que os símbolos ― que se referem à realidade através dos conceitos dessa realidade ― são separados da realidade e adquirem vida própria, independentes da experiência humana.

Neste sentido, a racionalização pretende que o real obedeça às estruturas simplificantes do espírito tacanho, alienado ou que se pretende venha a ser alienado. Através da racionalização, é a realidade que se acomoda à visão ideológica da elite política, e já não é a razão e a mundividência da sociedade que se acomoda à objectividade empírica da realidade.

Através da construção mítica de uma realidade ficcional que não corresponde à realidade concreta e objectiva, e através da utilização de “palavras mestras” ― derivadas e desviadas radicalmente do seu sentido e conteúdo revolucionário clássicos como, por exemplo, “igualdade” ―, a nova “esquerda reaccionária” submete o real à sua ideia do racional, ou seja, aquilo que é racional passa a ser exclusivamente tudo aquilo que é consentâneo com a visão subjectiva ideológica da elite política da esquerda, entendida assim como sendo os “novos reaccionários” do Neomodernismo.

Anúncios

2 comentários

Filed under Filosofia, política, religiões políticas

2 responses to “O “casamento” gay e a racionalização ideológica da esquerda

  1. «A partir do momento em que o acto homossexual é considerado “igual” ao acto sexual propriamente dito (heterossexual e natural) ― como afirmado no púlpito do parlamento português pelo deputado socialista e homossexual Miguel Vale de Almeida ―, estamos em presença de um processo de racionalização e não de racionalidade. A razão transformada em “racionalização”, ergue-se acima dos factos e torna-se superior à constatação experiencial da realidade.»

    O problema é que eles não entendem. Há todo um percurso de vida que nos leva a perceber. Mas temos que tentar.

  2. Pingback: A estimulação contraditória esquerdista através da racionalização do absurdo « perspectivas

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s