Os “dois medos” da doutrina ideológica

Ontem, numa dupla entrevista na RTP 1, Garcia Pereira (MRPP) criticou a oportunidade da lei socialista do “casamento” gay dizendo, entre outras coisas, que o povo português não tinha debatido suficientemente este assunto e que poderiam surgir, no futuro, reacções populares desagradáveis ― ao que José Manuel Pureza (Bloco de Esquerda) retorquiu dizendo que esse era “o argumento da direita”. Garcia Pereira respondeu dizendo que não tem “nenhum problema com isso”.

O que José Manuel Pureza revelou foi a expressão dos “dois medos” das doutrinas ideológicas: o medo da contaminação e o medo da recuperação.

O medo da contaminação mobiliza a rejeição imunológica da doutrina contra os pequenos factos e contra as ideias insignificantes, inofensivos em si mesmos, como se transportassem consigo os vírus do inimigo. O medo da recuperação considera esses pequenos factos e ideias insignificantes como sendo portadores de uma ameaça de integração no sistema inimigo.

Assim, numa doutrina ideológica, os dois medos associam-se para erguer uma fortaleza a qualquer facto ou a qualquer ideia sobre os quais o inimigo estaria de acordo. Receia-se ser cúmplice porque não se sabe ser complexo.

A julgar pela entrevista, Garcia Pereira parece abraçar uma “teoria”, que é em si mesma aberta ao exterior, enquanto que José Manuel Pureza abraça uma “doutrina”, que se fecha em si mesma e que tende sempre a transformar-se em dogma.

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Filed under religiões políticas

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